
Agora com licença, que ainda estou tonto com a experiência. Essa noite, vou sonhar como não sonho há muito tempo. Acho que desde meus 12 ou 13 anos...
Contos de terror, horror e fantasia
Sílvia permaneceu na porta do quarto por vários minutos, como se contemplasse um local sagrado onde não era digna de entrar. Seus olhos estavam distantes, vazios. Os tranqüilizantes receitados pelo psiquiatra produziam uma neblina espessa, que encobria a incessante vontade de chorar até morrer.
Tirou do bolso a cartinha de Otávio, manuseada tantas vezes que a tinta começava a sumir nas bordas. Sem perceber, caminhou em direção ao leito enquanto lia a última mensagem do filho doente, narrando o desespero de passar a vida inteira deitado, incapaz de se locomover sem ajuda. O mais torturante era aquele trecho final, onde pedia algo que a mãe jamais poderia acatar:
“Por favor, peço que destrua essa cama maldita. Queime, jogue no lixo não importa, apenas livre-se da minha prisão.”
A mulher sentou no colchão com um suspiro baixo, o máximo de emoção que conseguia exprimir. O aposento era mantido como estava desde a morte do filho único, os pôsteres de seu time de futebol ainda nas paredes, os porta-retratos na mesma posição. As fotos mostravam o garoto sorrindo com a família, imagens tiradas nos raros dias de pouca dor.
Dias preciosos.
O quarto era, portanto, um verdadeiro memorial. Pelo que dependia dela, continuaria daquele jeito para sempre, com o mesmo leito no mesmo lugar. Levantou de maneira lenta, arrastando os chinelos de pano que quase nunca tirava. Trancou o quarto para ninguém entrar, como sempre fazia.
Ainda aprisionado à cama, o espírito de Otávio implorou para ser atendido, sussurrando lamentos que a mãe não era capaz de ouvir.
Vou contar um pesadelo que tive quando era criança. Não parece um típico sonho infantil, mas também, nunca fui uma criança típica. Então, não duvide.
Andava sozinho de madrugada pelas ruas de uma cidade, sob a vigília de imensos edifícios que faziam eu me sentir diminuto. Tinha medo dos mendigos que dormiam na frente das lojas, cadáveres em suas mortalhas de jornal. Apertei o passo como se tivesse algum lugar para ir, mesmo sabendo que estava perdido naquele labirinto de pesadelo.
Encontrava-me no meio da quadra quando um grupo de jovens apareceu. Gritavam insultos e davam socos nos braços um do outro, chutando placas e marquises fechadas. De forma discreta – ou ao menos, da forma mais discreta possível quando se é a única outra pessoa na rua – caminhei para a calçada oposta, torcendo para não ser notado.
Fui.
Um deles olhou para mim e disse para tomar cuidado. Isso não era tão ruim, mas em seguida eles correram em minha direção.
Entrei na primeira porta que vi aberta e lá dentro era um corredor sem luz. Olhei para trás e havia uma praia ensolarada, todavia preferi caminhar rumo às trevas.
Após alguns passos, percebi alguma iluminação lá na frente. Luzes mortiças sobre quadros estranhos e belos, com rostos e corpos em posições anormais. Eram centenas, mesmo assim fui conferindo um a um, tentando decifrar padrões indecifráveis que pareciam diferentes cada vez que olhava. Era inquietante, mas o sonho me obrigava a continuar.
Então, vi que não estava sozinho ali dentro. Um vulto encarava a última pintura do corredor, uma obra que ia até o teto. O sujeito balançava lentamente para os lados, como se estivesse com dor, e suas feições estavam cobertas pelas sombras. Após alguma hesitação, aproximei-me.
O quadro mostrava um ser humano visto de frente, pernas e braços abertos igual numa pintura de Leonardo da Vinci. Seu olhar era o vazio da casca de uma criatura devorada. A boca jazia num grito congelado, como se tivesse percebido que jamais conseguiria sair de sua prisão de tinta e moldura.
Prestei atenção e percebi que o homem na tela estava esticado, além de estar em alto relevo. Hipnotizado, estiquei os dedos em direção ao quadro – não sem antes olhar para meu silencioso companheiro, esperando uma repreensão que não veio – e toquei no tornozelo da pintura. Mesmo sendo um sonho, senti uma textura de epiderme humana.
Afastei meus dedos e constatei, apavorado, que estavam vermelhos.
- Gostou do quadro? – perguntou o sujeito ao meu lado. As luzes se acenderam, permitindo que eu visse seu rosto de osso e músculos, sem qualquer pele cobrindo o sorriso de caveira.
- Fui eu que fiz - afirmou a coisa, rindo de satisfação.
Acordei em minha cama, suado e trêmulo. Só não chamei meus pais por vegonha.
Desde então, procurei não me perder de novo.
Mas até quando vou conseguir?
Sempre há um Peixe Maior
O motoboy corria no engarrafamento da avenida paulistana, apressado para a última entrega antes do almoço. Sua moto rugia para os carros como um cão pastor, mostrando às ovelhas quem era o chefe. Reféns da própria imobilidade, os motoristas ouviam aquele barulho poderoso se aproximando e olhavam nervosos para os lados, torcendo para terem deixado espaço suficiente entre os vizinhos de quatro rodas. Ficavam aliviados quando o inimigo velado passava zunindo; sentimento efêmero, logo dissipado por outros sons parecidos que vinham atrás, intermináveis.
O motoqueiro continuava seu caminho, ciente de sua posição privilegiada naquela estranha cadeia alimentar. Sorriu seu sorriso coberto de viseira negra, deliciando-se em apavorar aquela gente endinheirada em seus veículos lentos.
De súbito, viu algo à sua frente que alegrou ainda mais seu dia: uma BMW quase encostada ao veículo da direita, deixando um espaço apertado para sua passagem. O motorista do caríssimo carro cinza direcionara os pneus para a esquerda, tentando voltar para sua fila. Mas isso não era desculpa pra “vacilão”. O motoboy ergueu a perna e se preparou para o chute, na confiança gerada pela experiência. Gritou de satisfação quando arrancou o retrovisor do obstáculo, a peça caindo indefesa sobre o asfalto quente.
Fitou seu próprio retrovisor, na esperança de captar um vislumbre da revolta do playboy; no entanto, viu apenas um cano reluzente e comprido, que se ergueu do capô da BMW; algo atingiu a moto no instante seguinte, a explosão fazendo seu corpo voar longe. O capacete salvou seu crânio de um traumatismo, mas não o pescoço de uma fratura grave. Inconsciente, só descobriria mais tarde que precisaria escolher outro ofício. Algo que pudesse ser feito apenas piscando os olhos, por exemplo.
Após alguns instantes de estupefação, alguém de outro carro abriu as janelas e começou a aplaudir, sendo imitado por todos os motoristas que estavam próximos.
Dentro da BMW, James Bond apertou o botão que recolhia o lança mísseis, prometendo a si mesmo que nunca mais aceitaria uma missão no Brasil.
A Mansão Macabra 2009 é dedicada a Edgar Allan Poe, em comemoração ao bicentenário do poeta, com recitais, contação de histórias, apresentações teatrais, música gótica e performances macabras no jardim da Casa das Rosas.
A festa é dividida em dois momentos: a partir das 20h do dia 31 de outubro, um evento especial que atravessa a madrugada e se encerra às 6 horas da manhã. Já no dia 1o de novembro, as crianças podem participar de um evento assustador!
19h – Instalação
Edgar Alone Poet
Às 19 horas do dia 31 de outubro, estará oficialmente aberta a instalação multimídia Edgar Alone Poet, uma homenagem ao bicentenário do poeta, um dos precursores da literatura fantástica moderna. A instalação estará aberta à visitação do público de 31 de outubro a 29 de novembro.
20h – Poesia
Sarau da Casa
O Sarau da Casa comemora o Halloween com a participação dos poetas Luiz Roberto Guedes e Carla Caruso, e do público, que poderá recitar poemas próprios ou de outros autores em nosso sarau aberto. Após as leituras macabras, haverá a apresentação do Blu Jazz Trio (Henrique Messias, Marcelo D'Angelo e Vinícius Pereira). Inscrições para leitura de poemas: na recepção da Casa das Rosas, durante o próprio sarau.
22h – Teatro
O Gato Preto
O conto “O Gato Preto” narra, em primeira pessoa, a sucessão de acontecimentos que levaram um homem aparentemente normal a perpetuar os mais terríveis atos. O conto de Poe está lá. Mas ele não é a peça; é o pretexto, e é a partir dele que a Nossa Companhia Imaginária interroga, critica, força e homenageia o autor que, neste ano de 2009, completaria 200 anos, caso ainda estivesse vivo...
Texto: Edgar Allan Poe. Direção: Eduardo Parisi. Produção: Nossa Companhia Imaginária. Elenco: Andrea Tedesco, Juliana Lacerda, Rodrigo Arijon, Rodrigo Pessin e Luciano Carvalho.
Recomendação etária: 14 anos.
24h e 1h – Visita
Visita assombrada à Mansão Macabra
Durante a madrugada, a Casa das Rosas se transforma numa mansão assombrada, perturbando a paz de espíritos antigos, cujas aparições vagam pelas escadas e quartos e se revelam na visita monitorada, realizada por um estranho anfitrião, aos cômodos, instalações e ambientes mais inusitados da mansão. Com os atores Claudia Gianini, Simone Xavier, Paulo Cavalcante e Fernanda Padilha. (30 pessoas por visita).
2h30 – Poesia
Recital de poemas malditos
A poesia maldita estará presente por meio das leituras de Luiz Roberto Guedes, Luiz Alberto Machado Cabral, Donny Correia, Frederico Barbosa, Martha Argel e Greta Benitez, que interpretarão poemas de Edgar Allan Poe, Baudelaire, Lord Byron, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, além de textos próprios.
4h – Música
Banda Interlude
A banda Interlude presta tributo a uma das mais importantes, influentes e admiradas bandas inglesas de todos os tempos: The Cure. Já se apresentou nas mais célebres casas e festas de São Paulo, como Atari Club, Thorns Festival, Café Piu Piu, Morrison Rock Bar, Kazebre, Outs e em outras cidades e estados. Em lugares alternativos e undergrounds ou em palcos tradicionais, procura transmitir a essência e a energia das apresentações da banda original, com um repertório que passeia por toda a extensa carreira do The Cure, do início pós-punk, passando pelo dark, pop perfeito, hard até o psicodelismo.
PROGRAMAÇÃO ESPECIAL NO CAFÉ PANAROMA
Panaroma é uma palavra-valise, presente no livro Finnegans Wake, de James Joyce, que une as palavras “pan” (“tudo”, em grego) e “aroma”, ou seja, “todos os aromas”, e ainda faz um trocadilho com “panorama”. No livro de Joyce, a expressão é Panaroma of all flowers of speech, ou, na tradução de Augusto de Campos: “o panaroma de todas as flores da fala”. Assim se explica por que Panaroma foi o nome escolhido para o café da Casa das Rosas.
Durante a Noite das Bruxas, o café Panaroma ficará aberto até as 3 horas da manhã e servirá um cardápio especial, como massas negras com molhos vermelhos, drinques de sangue (ops!) e outras delícias. Enquanto você saboreia as novidades, serão apresentados filmes, performances teatrais e de dança.
21h – Dança
Performance no jardim
A Cia Micrantos fará uma performance no jardim da Casa das Rosas que atrairá a atenção de todas as pessoas... e de todos os espíritos.
21h – Cinema
Nosferatu; O homem que ri; O Gabinete do Dr. Caligari
Os filmes expressionistas alemães refletem o sentimento do horror da década de 1920, por meio do cenário perturbador, dos contrastes violentos de claro e escuro, e da distorção da realidade sensorial e lógica, trazendo a atmosfera do pesadelo ao espectador.
0h – Teatro
O engenho mal-assombrado
Tudo começa à meia-noite. No meio do silêncio do velho engenho, os ruídos começam a ser ouvidos. Máquinas enferrujadas e carcomidas pelos anos voltam a rodar e, de todos os lados, surgem vultos que, ao comando do feitor, colocam-se em seus postos de serviço, iniciando o trabalho...
Direção: Roberto Paulino Júnior.
0h30 – Teatro
Nosferatu
Drácula é um conde-vampiro, proprietário de uma velha mansão. É fascinado por uma jovem e virgem donzela que seria a reencarnação de sua antiga amada. Logo após perseguir e seduzir a jovem, que cai em seus braços, transforma-a em uma vampira. Mas terá de enfrentar o médico e ocultista Dr. Van Helsing, um especialista em vampiros que o persegue implacavelmente e que pode acabar com seu reinado de terror.
Direção: Roberto Paulino Júnior.
1h30 – Contação de histórias
Sepultamento prematuro
Alguns temas são terríveis demais para que possam ser usados pela ficção... Ser enterrado vivo é sem dúvida o pior deles! Poe narra enganos ocorridos nos idos de 1800: quatro diferentes episódios de pessoas que morreram e voltaram. Finalmente, acompanhamos de perto um homem que sofria de catalepsia e seus pesadelos: todas as precauções, a reforma do jazigo familiar, os juramentos dos amigos... e seu destino!
Cia. Em Cena Ser
Histórias originais: Edgar Allan Poe.
Adaptação e interpretação: Cristiana Gimenes.
Direção: Andreza Domingues.
2h – Contação de histórias
O poço e o pêndulo
Num de seus contos mais famosos, Poe nos conta, em primeira pessoa, os dias de um prisioneiro da Inquisição, em Toledo. Logo após ouvir sua sentença de morte, ele desmaia e narra tudo o que sentiu depois: a dúvida sobre o que aconteceu com ele, a percepção da situação, o cárcere, os demônios pintados nas paredes, os ratos... e as crueldades que seus carrascos lhe reservaram: o poço e o pêndulo.
Cia. Em Cena Ser
Histórias originais: Edgar Allan Poe.
Adaptação e interpretação: Cristiana Gimenes.
Direção: Andreza Domingues.
MATINÊ MACABRA
RÉ LOU IM NA CASA DAS ROSAS
Saci-pererê, curupira, fantasmas, abóboras e mulas-sem-cabeça farão uma visita inesquecível à Casa das Rosas. O Dia do Saci foi criado em caráter nacional, em 2005, como uma forma de valorizar o folclore brasileiro, já o Halloween é uma data tradicional do calendário celta, levada aos Estados Unidos no século XIX. Na Matinê Macabra da Casa das Rosas, todas as culturas convivem e as crianças só têm a ganhar!
14h – Contação de histórias
História do Curupira
O Grupo Trii – Estêvão Marques, Fê Sztok e Marina Pittier – apresenta músicas e histórias de dar calafrios. Quem aparece neste encontro é o Curupira, protetor das matas, com cabelo de fogo e pés virados para trás. Quem o conhece sabe do que ele é capaz.
15h – Atividades educativas
Brincadeiras de arrepiar
As crianças aprenderão sobre a cultura do Halloween, Dia do Saci, Dia da Bruxa e histórias vindas de diversos países por meio de brincadeiras, como Pega-pega vampiro, Corrida do Saci, Balança caixão, Brincadeira da caveira, atividades plásticas, entre outras. Com os educadores Laiz Hasegaza, Laizane de Oliveira, Mariana Gondo e Alexandre Lavorini.
16h – Contação de histórias
O macaco e a banana
Uma música-história tenebrosamente engraçada, além das músicas "A noite no castelo" (Helio Hiskind) e "Taquaras" (Palavra Cantada) que deixarão todos arrepiados! As músicas de suspense "Murucututu" (Grupo Roda Pião) e “Monstro” (Rumo) vêm para dar mais um arrepiozimmm na espinha. Com Grupo Trii – Estêvão Marques, Fê Sztok e Marina Pittier.
16h – Exibição de filme
Noiva Cadáver
Passado num vilarejo europeu do século XIX, o filme conta a história de Victor (Johnny Depp), um jovem que é arrastado para o outro mundo ao se casar sem querer com a misteriosa Noiva Cadáver (Helena Bonham-Carter), enquanto sua verdadeira noiva, Victoria (Emily Watson), o aguarda desolada na Terra dos Vivos. Embora a vida na Terra dos Mortos se mostre mais animada do que o meio vitoriano em que cresceu, Victor descobre que nada há neste mundo, ou no outro, que possa afastá-lo de sua amada. É uma história de otimismo, romance e de uma alegre vida após a morte, contada no clássico estilo de Tim Burton.
17h – Visita
Visita assombrada à Mansão Macabra
O passeio começa pelo jardim, com ouvidos atentos a sons indefinidos, olhos ligados em movimentos estranhos. O grupo entra pela sala de jantar e procura a passagem secreta que esconde um grande mistério. No porão, o grupo que ainda restou terá uma surpresa... no escuro. Com Fabio Lisboa.
18h – Música
Grupo Musicantes
Pensado e criado por Carlos Kater, o Musicantes é um grupo cujos participantes atuam como músicos, atores, contadores de histórias, dançarinos. A proposta dessa apresentação é estimular o resgate de jogos expressivos e brincadeiras musicais da cultura brasileira, relacionando-os ao Dia do Saci.
SERVIÇO
Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura
Avenida Paulista, 37
Tel.: (11) 3285.6986
www.casadasrosas-sp.org.br
Horário de funcionamento
De terça-feira a sexta-feira, 10h às 22h
Sábados e domingos, 10h às 18h (passível de alteração, de acordo com a programação).
Convênio com o estacionamento Patropi: Alameda Santos, 74
Dúvidas, críticas e sugestões: contato.cr@poiesis.org.br
Data da temporada: De 31/10/09 a 01/11/09
Dias e horários:
Quando o relógio anunciou onze horas, poucas cadeiras ao redor da jaula estavam ocupadas. A tempestade não estava cooperando com o pouso dos helicópteros na ilhota particular, mesmo assim todos viriam. Nenhum dos associados desejaria perder o evento daquela noite.
Max Evanier, o organizador, recebia os recém-chegados de forma efusiva e servil, encaminhando-os para seus assentos. Cada lugar ficava a uma boa distância das cadeiras vizinhas, possibilitando que os seguranças de cada cliente se posicionassem da maneira adequada. Belas garotas serviam bebidas finas, diminuindo a impaciência geral e aumentando a vontade de competir.
Quando a noite atingiu seu auge, todos os ansiosos convidados estavam presentes. O recinto tinha uma atmosfera calculada de decadência e penumbra, visando manter o clima de ilegalidade e ainda assim oferecer conforto. Muitos achavam essa escolha estética questionável, mas suportavam sem reclamar. Aceitariam qualquer coisa para afastar aquele tédio infindável, a rotina aborrecida de quem já havia conquistado tudo que era possível conseguir.
Era aí que Max entrava. Ele fornecia emoção.
Havia começado organizando brigas de galo na América do Sul, anos antes do primeiro fio de barba se insinuar por seu queixo gorducho. Depois, passou para rinhas de cães. Quando os embates entre pitt bulls estavam na moda, um ricaço lhe pagou uma pequena fortuna por uma luta entre duas onças. A partir de então, a coisa só aumentou. Todo tipo de fera passou pelos ringues daquele sujeitinho desagradável, que formou uma clientela fiel e abastada.
Mas com o tempo seus clientes começaram a ficar entediados, e já não importava trazer ursos, leões ou tigres siberianos. Quando sugeriu promover lutas entre espécies diferentes, os sócios ficaram escandalizados, dizendo que isso acabaria com a integridade do jogo. Pois bem, se todos os grandes animais selvagens já haviam sido utilizados, como arranjar algo ainda mais incrível? Quando os negócios pareciam se encaminhar para o fim, apareceu o mago, com uma proposta.
Max pensava sobre isto quando o necromante fez sua entrada triunfal, de pé sobre o veículo que transportava dois engradados de madeira. Não tinha barba longa nem usava manto, a aparência lembrando um surfista cinqüentão. Tentáculos de luz branca se desprendiam de suas mãos, entrando nas caixas por pequenas frestas. Oito empregados trêmulos carregaram os caixotes para dentro da jaula, e os abriram com pés de cabra. Nunca antes haviam realizado um serviço tão rápido.
Exclamações de espanto foram ouvidas quando o conteúdo das caixas foi revelado: dois homens altos e pálidos, congelados em poses agressivas; o de cabelos compridos usando calça social e camisa pólo, enquanto o de cabelos curtos vestia um terno cinza. Aparências triviais à primeira vista, no entanto, era só olhar os dentes para perceber que havia algo estranho.
O feiticeiro foi o último a sair antes de trancarem a jaula, com um semblante calmo. Sentou afastado, ainda ligado aos vampiros pelos fios luminosos de seus dedos, então pronunciou encantamentos numa língua morta. As cordas diáfanas mudaram para uma cor azulada e desprenderam-se das criaturas, passando de imediato para as barras e chão da gaiola.
No mesmo instante os seres da noite saltaram contra as grades, e foram repelidos de forma violenta.
Os clientes soltaram gargalhadas nervosas, o riso de quem acabara de escapar do atropelamento ou algo assim. Sabiam que se o mago não tivesse erguido a barreira no momento certo, alguém poderia ter morrido.
Os vampiros se levantaram, olhando furiosos para os lados. Aquele que tinha cabelos curtos arrumou o colarinho e falou com o outro, numa voz macia como magma:
- Razalael! Há quanto tempo não vejo sua cara horrenda?
- Desde a Revolução, Dasthat.
- Industrial?
- Francesa.
Razalael avaliou a situação. Se ao menos tivesse algum objeto pesado para arremessar no mago, ele perderia a concentração e o escudo cairia. Mas não tinha nada, até os sapatos haviam sido tomados dos dois.
Estavam sem saída.
- Meus caros amigos, sejam bem vindos! – falou Max Evanier no microfone, e os vampiros concluíram que não estava se referindo a eles. – Como sabem, nós já oferecemos os embates mais empolgantes neste local! Meu sócio trouxe lobisomens do Brasil para uma memorável noite de lua cheia! Apresentamos um embate titânico entre dois pés-grandes do Himalaia, num evento que abalou as estruturas da arena! E agora, trazemos as mais poderosas criaturas da noite! Façam suas apostas, pois a luta vai começar!
Os homens aplaudiram e sussurraram lances pelos pontos eletrônicos, enquanto os supostos combatentes cruzaram os braços. Todos ficaram na expectativa e o organizador pigarreou, tentando manter a compostura.
- Bem, é a primeira vez que preciso explicar as regras aos nossos animais.
Novas risadas inquietas, roupas que custavam mais do que certos carros manchando de suor.
- Vocês devem lutar até a morte – continuou Max. - O vencedor será libertado.
Foi a vez do vampiro de terno rir.
- Verme, você nos subestima.
- Então meu sócio vai paralisar os dois de novo, e temos estacas...
- Faça o que quiser, covarde! Não iremos nos submeter...
A frase foi interrompida pelo murro de Razalael. Dasthat foi jogado longe e caiu em pé, limpando o sangue do ferimento que já estava cicatrizando.
- Ficou louco ou ainda mais estúpido? Ele não vai cumprir a promessa!
- Sendo nossa única chance, prefiro arriscar!
No instante seguinte os dois se chocaram, gerando um estrondo que fez todo o galpão tremer. Movimentavam-se tão rápido que quase não podiam ser vistos a olho nu, e a única coisa perceptível era o rastro de sangue por onde haviam passado. Porém, quando um deles ficava acuado em um canto, ambos surgiam como espectros difusos, quase uma miragem em meio aos trovões gerados por seus golpes, que abriam buracos e lançavam pedaços de pele e órgãos pelo ar.
Os expectadores começaram a sentir-se incomodados. Na maior parte do tempo não conseguiam ver o que estava acontecendo, e quando viam, era pior do que tudo que haviam presenciado. Se não tivessem vergonha de demonstrar fraqueza, todos já teriam levantado e ido embora. A visão das criaturas evocava medos antigos e profundos, uma aversão tão forte que fazia com que ansiassem pelo término da luta, não importando o resultado. Porém, uma vez que os ferimentos dos vampiros fechavam prontamente, parecia que aquilo poderia continuar pela eternidade.
De súbito, Razalael agarrou o antebraço de Dasthat e, com um movimento brutal, quebrou o membro do oponente. O berro de agonia do ferido encobriu os ruídos de asco dos presentes, e então, antes que o ferimento pudesse se curar, Razalael agarrou o úmero exposto e arrancou, gerando um novo urro de dor intolerável.
Dasthat caiu ao chão, quase desfalecido.
Razalael ergueu o osso afiado.
Todos prenderam a respiração.
Somente o organizador percebeu que havia algo errado. Tentou avisar, mas era tarde demais.
O vampiro girou o braço como um atirador de facas e arremessou o fragmento ósseo, que passou zunindo entre as grades e cravou em cheio na testa do mago.
Os tentáculos luminosos se apagaram, assim como a pouca vontade dos presentes de permanecer no recinto.
Razalael dobrou as barras com um movimento displicente e caminhou de forma calma até o cadáver, sem se importar com a turba
- Pra não dizer que nunca te dei nada.
- Seu filho de uma cadela leprosa! Já tinha planejado tudo, maldito?
- Perdoe-me, achei que você não concordaria.
- Vou te matar por isso, atirador de espetos! – o outro berrou, colocando o úmero no lugar e sentindo a rápida calcificação, os músculos e pele recobrindo o local.
Razalael sorriu. Poderia dar cabo do adversário agora, quando estava mais vulnerável, mas qual seria a graça? Além disso, a perspectiva de um combate futuro o agradava. Era difícil conseguir alguma emoção verdadeira, que afastasse o tédio da imortalidade.
- Aguardarei ansioso para trucidá-lo novamente. Mas gostaria de ter algum desafio da próxima vez, então tente se alimentar direito, ok? Vou deixar um lanchinho pra você ir começando.
Logo que o vampiro de cabelos compridos sumiu pela porta, gargalhando, Dasthat ouviu as explosões dos helicópteros e os gritos.
Ótimo.
Após tanta humilhação, precisava descontar em alguém.
Max Evanier recuperou a razão dentro da jaula, trancado junto com a maioria dos clientes, seguranças e empregados. Apavorado, localizou as barras que haviam sido dobradas, contudo elas estavam fechadas outra vez. Os demais olhavam apalermados para o vampiro de cabelos curtos, sentado numa cadeira próxima e cercado por cadáveres com pescoços dilacerados.
- Todos acordados? - perguntou Dasthat enquanto perfurava a jugular de um rico empresário, o sangue derramando espesso numa taça de cristal. Sorveu um longo gole antes de questionar, em tom irônico:
- Bem, vocês já sabem as regras. Estão esperando o quê?