segunda-feira, 6 de julho de 2009

Contos vencedores do Concurso Escritores de Terror!

Pessoal, o Concurso Escritores de Terror (que organizei junto com a colega Me Morte) chegou ao fim há alguns dias. Três excelentes histórias foram escolhidas, agora é o momento de compartilhá-las com vocês. Divirtam-se!


Primeiro lugar:

NASCIDO NO DIA DO SENHOR, de Wilson Lourenço

Bem, vou contar pra vocês algo que um amigo de um amigo meu me contou. O que rolou com o meu camaradinha, o Domênico.

Veja só você, Domênico é o tipo de cara que inspira confiança. Um negão alto e magrelo, de uns trinta anos e com sorriso aberto, cheio de dentes brancos na cara preta. Sempre com uma palavra amiga, sempre com um conselho bem-vindo, sempre calmo. Domênico é tão gente boa, é tão sangue-bom, que ninguém, ninguém jamais acreditaria se eu contasse que ele saiu no pinote do morro. Com toda a féria da semana, junto com sua filha pequena, a Mariana. Levando algo como, no mínimo, uns quinze mil reais. Pelo que soube, pra bancar alguma operação urgente da pequena.

Nos tempos em que o dono da boca-de-fumo era o Manuelzão, talvez houvesse até perdão. Uma sova de arriar os quartos, a expulsão dele e da família do morro e pronto. Afinal, era o Domênico! Quinze anos de serviços sem falta. Trabalhou de “vapor”, “fogueteiro”, “olheiro” e o escambau. Alguém que tinha passado a cuidar da contabilidade do tráfico tão direitinho que nunca deram falta de um centavo sequer.

Mas, desde que Manuelzão foi grampeado e o Luizinho Tinhoso tomou seu lugar, ninguém no seu juízo perfeito faria o que Domênico fez. Eu me lembro muito bem de quando era o Tico que cuidava do caixa da boca e ele deu sumiço numa mixaria, uns quinhentos paus, para pagar uma dívida e repor depois. Dívida de jogo, eu acho. Quando Luizinho descobriu a diferença, juntou seus capangas mais violentos e arrastaram o Tico lá pro “microondas”, no alto do morro. E, pelo que me contaram, foi uma covardia.

Primeiro porque, pra humilhar o Tico, arriaram as calças do coitado e uns dois capangas enrabaram o pobre à força. Logo Tico, que se gabava de ser muito homem, de ser comedor. Depois, Tinhoso meteu a faca no bucho dele e deixou o sujeito berrando com as tripas de fora. Terminaram o serviço largando ele pendurado de cabeça pra baixo no lixão. Tipo, pros ratos o comerem vivo durante a noite. Todo mundo escutou ele gritando e ninguém teve coragem de fazer nada. No dia seguinte tava o corpo lá, todo comido, cheio de urubus ao redor. Até dentro da barriga tinha rato.

Domênico fugiu então com a filha pra casa da bisavó dele. Uma velha bem velha de uns noventa e lá vai fumaça, quilombola lá de Brejo dos Crioulos. Ele achava que estaria seguro lá porque o morro onde a bisavó dele mora é controlado por uma milícia. Ele pensava que Tinhoso não teria coragem de ir atrás dele lá.

Uns três dias depois que estava escondido com a menina na casa da velha, a “bisa” jogou os búzios pra Domênico. E ela olhou ele bem no grão do olho, com aqueles olhos pequenos e cheios de cataratas, porque não tinha visto nada de bom. Ele pediu então um trabalho bem pesado pros orixás. A velha era poderosa, sabia coisa do tempo dos escravos. Estas coisas que se passam de mãe pra filha, de avó pra neta. Mas a velha falou: “Num dá tempo Domê, os orixás atendem quando querem. Num é assim!” Foi então que ele pediu pra ela algo mais. Alguma coisa que deixou a velha apavorada. Um troço que ela jamais faria pra qualquer pessoa. Mas, ele não era qualquer pessoa!


No mesmo dia, de noitinha, Domênico tava fumando seu cigarrinho e bebendo sua cervejinha sossegado perto da birosca do Pimpão na subida da favela, quando um monte de carros e motos cercaram o lugar. Ele não reagiu porque não era bobo nem nada. Levou uns tapas e enfiaram ele no carro e levaram pro morro onde Tinhoso era o chefe da boca. Subiram com ele pro “microondas” e começaram a dar porrada na cara. Só socão. Quando ele tava todo ensanguentado, perguntaram: “Quem é que manda no morro? Quem é que manda nesta porra?”.

Ele falou algo baixinho que ninguém escutou. Perguntaram de novo e ele disse de novo algo muito baixo. O Fernando Malandrinho, que era um dos negões mais parrudos e braço direito do Luiz Tinhoso, chegou o ouvido bem perto da boca do Domênico e perguntou de novo.

O que eu vou contar foi coisa que um menino que tava no alto de uma árvore viu. A história passou de boca em boca e pode ser que eu esteja exagerando. Mas eu boto fé que foi assim mesmo que aconteceu.

Pois, quando o Malandrinho chegou o ouvido junto da boca do Domênico, ele não respondeu. Ao invés de responder ele mordeu a orelha. Mas mordeu tão bem mordido, feito um bicho, sei lá. Mordeu e girou o pescoço feito um leão. Arrancou a orelha com os dentes e puxou a metade da pele do rosto toda junto. Praticamente arrancou o rosto do desgraçado.

Com a boca cheia de carne e sangue, Domênico começou a rir. Todos ficaram apavorados, porque aquela não era a boca dele. Aquilo não era boca de gente. Era quase um rasgão que ia de orelha à orelha e tinha tanto dente que não parecia possível caber numa boca só.

E ele, que até então, estava ajoelhado levando porrada, arrancou a camisa e se levantou. Não era mais o Domênico, o negão simpático, que tava lá. Era coisa muito maior, muito pior.

O pessoal não pensou duas vezes. Eles sacaram os berros e saíram pipocando pra cima dele com tudo. Mas ele só ria, porque as balas derretiam e escorriam pelo corpo. Nem arranhavam o filho-da-puta. O bando se apavorou e tentou fugir. Mas, do nada, surgiu uma parede de fogo fazendo um círculo bem no meio do “microondas”.

Ficaram lá se olhando apavorados sem saber o que fazer. O bicho que foi o Domênico, jogou a cabeça para atrás, levou as mãos cheias de sangue e as esfregou no rosto todo feliz. Como se estivesse gozando ou se preparando pra gozar depois. Da cabeça, montes de cobras surgiram e a criatura gargalhava que nem louca. Sabe, não se movia feito gente. Ele meio que dançava, cada movimento seu não era natural.

De repente, parou de rir e começou a falar muito sério com uma voz tão arranhada quanto giz numa lousa : “Há favores que, de tão prazeirosos, nem precisariam ser cobrados. Há aspectos de mim mesmo que não deveriam ser despertos. Eu não sou o Exu-Elegbara brincalhão do povo negro. Porém sim, o que outros povos também antigos chamavam de Belial. Quanto a vocês, podem me chamar do que quiserem, pois não fará diferença alguma.”

Dito isto, ele rasgou as calças do Domênico que ele ainda vestia e exibiu, com orgulho, o pau ereto, gigante e espinhoso. Os gritos foram escutados no morro todo a noite inteira. A criatura só ria e gozava com todo o tipo de atrocidade. Depois de violentar Tinhoso por umas tantas vezes, parece que o beijou, enfiando a língua comprida garganta abaixo e revirando e puxando suas tripas pela boca depois. Virou o infeliz pelo avesso.

Quando amanheceu, no dia seguinte, só havia restos queimados e rasgados por todos os lados e o chão estava pegajoso de tanta porra e sangue espalhados.

O mais incrível foi o que me contaram depois. Que, o tempo todo, Domênico esteve na casa da sua bisavó, xingando baixo pra filha não escutar palavrão, enquanto tentava segurar o controle remoto da TV com as mãos enfaixadas, agora, sem os polegares dados em oferenda.

É o que eu sempre digo. O cara não é marrento, o sujeito é gente fina, é malandro das antigas. Levaria tiro por um amigo numa dura dos meganhas e tal. Mas, não fode com ele não. Não fode, porque ele pode te foder direitinho em troca!


Segundo lugar:

O GUARDA-CHUVA, de Luiz F. Riesemberg

Sem que ele desconfiasse, começamos a chamá-lo de “reloginho suíço”. Não só pela pontualidade quase doentia que mantinha em todos seus compromissos, mas também pelo metodismo exagerado que demonstrava nas mais simples atividades.
Ele vivia com a roupa muito bem passada e engomada, e os sapatos impecavelmente engraxados. Ia ao barbeiro aparar o cabelo e as costeletas sempre nas primeiras sextas-feiras de cada mês. E o simples ato de caminhar na rua era carregado de uma pomposidade imensa, como se cada movimento fosse devidamente premeditado.
Ele devia ser feliz assim, mas o achávamos antiquado demais, um chato. O pior era ouvir seus discursos intermináveis, quando ele achava estar agradando a todos com sua insuportável verborragia.
Às vezes imaginávamos como seria na intimidade do lar, com a esposa. Devia tratá-la por “senhora”, e teria chiliques se descobrisse um amontoadinho de pó sobre a prataria na sala de estar. Essas suposições sempre nos causaram muitos risos.
Todos tolerávamos seu jeito, mas daquela vez estávamos dispostos a colocar em prática um plano antigo, criado provavelmente em um momento de exageros alcoólicos, e aperfeiçoado a cada nova conversação sobre o tema: queríamos lhe pregar uma peça, para — pelo menos um dia na vida — vir abaixo toda aquela perfeição desesperada com que fazia cada gesto.
Depois de muito divagar em segredo, o convidamos para um jantar na residência de um dos convivas, com o falso intuito de servir de despedida de estimado colega, que faria uma longa viagem.
Marcamos para as vinte horas, como sempre, mas toda a turma já estava reunida muito antes, preparando as surpresas daquela noite.
Às vinte horas em ponto, tocava a campainha do local da reunião.
O sujeito foi recebido pelo mordomo, que recolheu sua capa, o chapéu e o guarda-chuva, depositando-o ao lado da porta. Esta era outra de suas características mais irritantes: a simples presença de uma nuvem no céu fazia com que ele carregasse, onde fosse, aquele enorme guarda-chuva pontudo debaixo do braço. Era um guarda chuva preto, mau humorado, que parecia estar sempre trazendo más notícias.
Imagine qual foi a surpresa do nobre homem ao reparar o grande relógio na parede da sala, marcando vinte horas e trinta minutos.
Ele deu uma olhada em seu relógio de pulso. Vinte horas e um minuto.
Foi conduzido, confuso, até a sala de jantar, onde observou uma mesa farta, com toda a turma reunida à sua volta, animada, já apreciando o prato principal.
— Olha só quem apareceu atrasado! Achamos que nem vinha mais! — bradou um dos companheiros mais exaltados, dando a entender que o vinho já havia sido aberto há um bom tempo.
— Parece que vai chover mesmo! Nunca o vimos se atrasar assim! — disse um outro.

Envergonhadíssimo, o convidado pediu as mais sinceras desculpas.
— É a primeira vez que isso me acontece. Preciso levar meu relógio ao conserto. Vejam só: marca dois minutos após as vinte!
Vários dos homens à mesa olharam para seus próprios pulsos.
— Vinte e trinta e dois no meu.
— No meu já são trinta e quatro.
— Ah, deixa para lá! O importante é que você veio se despedir de mim! Venha, puxe uma cadeira e sente conosco!
Ainda de certo modo contrariado, o convidado comentou:
— Eu posso jurar que o relógio estava funcionando muito bem ainda hoje. Não fossem as nuvens no céu, eu diria a hora exata só pela posição das estrelas, e chegaria no horário marcado.
Alguns riram do exagero, mas mais da metade ficou em silêncio, sabendo que o comentário não era tão absurdo assim, partindo da boca de onde veio. Com tempo bom, a brincadeira estaria acabada.

Os amigos sabiam que ele gostava de sentar-se sempre com muito espaço livre de ambos os lados, para não lhe prejudicar os movimentos ao servir-se. Foi por isso que deixaram a única cadeira vaga entre os dois homens mais encorpados do grupo.
A vítima da peça ficou espremida, mas esforçou-se para sorrir assim mesmo, mantendo a classe.
— Eu é que peço desculpas agora — disse o anfitrião. — Como achávamos que você não vinha mais, mandei retirar os talheres.
Deu a ordem ao criado.
O mordomo trouxe o necessário à mesa, mas havia uma grande impressão digital na taça, e os talheres foram depositados displicentemente, um tanto tortos, de propósito para irritar o metódico convidado.
Toda a turma permaneceu em silêncio, observando o homem servir-se, cada vez mais tímido. Aos poucos cresciam pequenas gotas de suor em suas têmporas, e um leve rubor surgia em toda a face.
Os arquitetos do plano já riam por dentro, e começavam a dar-se por satisfeitos, vendo que tudo estava indo às mil maravilhas. Mas ainda haviam preparado mais para o colega.
Depois do jantar, quando foi dado um tempo nas brincadeiras, para não constranger demais o pobre homem, os cavalheiros levantaram-se e dirigiram-se à sala.
O dono da casa trouxe uma fina caixa de madeira e abriu a tampa, mostrando uma série de charutos cubanos. — Vamos experimentar essas maravilhas! — disse.
Cada convidado foi retirando uma peça da caixa, e já acendendo. Ao amigo esquemático só restou o último charuto, aceito com a insistência dos outros, que queriam vê-lo descer, ainda mais, de seu pedestal de elegância e pedantismo.
Conversavam, entre muitas baforadas, sempre procurando deixar o “reloginho suíço” no centro das atenções. Ele divagava a respeito de questões políticas da sociedade quando, ao interromper a fala e colocar mais uma vez o charuto na boca, um estalo o fez arregalar os olhos de espanto e ruborizar totalmente. A ponta do charuto que fumava havia explodido, e desta vez os comparsas não detiveram o riso, entregando-se.
A vítima das brincadeiras ainda estava transtornada pelo susto, sem querer acreditar que adultos daquela classe seriam capazes de tamanha infantilidade. Começou a tossir, engasgado pela fumaça que engoliu sem querer durante o estouro.
Um dos homens pediu ao mordomo que trouxesse uma taça de vinho ao homem.
— Desculpas, meu companheiro — disse o anfitrião. —Eu tinha esse charuto explosivo guardado há meses, e não pude evitar! — e ria. — Eu não podia imaginar que logo você era quem ia ficar com ele. Todos aqui eram vítimas em potencial!
Eles estavam rindo, e o criado trouxe o vinho.
O respeitoso homem, visivelmente irritado com a perturbação que sofria naquela noite, levou a taça à boca. Já nem foi tanta surpresa sua quando notou que o vinho escorria pelo queixo e seguia pelo peito, manchando-lhe a camisa.
Outra explosão de risos.
Haviam lhe pregado mais uma peça, desta vez com uma daquelas velhas taças furadas.
Isso foi o ápice para que perdesse a paciência. E esse era o objetivo dos colegas.
— Eu não posso acreditar que os senhores tenham perdido tempo com essas imbecilidades — dizia, ainda menos contido que antes.
Levaram-lhe uma toalha para que se enxugasse, mas ele a recusou. Em vez disso continuou, áspero:
— Não acredito que perdi meu precioso tempo vindo até aqui, para ser joguete de vocês, seus sátiros!
O riso dos colegas já era menos de diversão, e mais para dissimular o mal estar. De qualquer forma era curioso vê-lo irritado, disparando aquelas frases. Esta poderia ser a única vez que presenciavam tal cena. E de fato foi mesmo.
Sem querer ouvir os risos, as desculpas e o “deixa-disso”, o cavalheiro dirigiu-se direto à porta, atravessando a barreira formada pelos irritantes amigos, sem sequer olhá-los no rosto. Antes de sair, o mordomo lhe entregou um chapéu e um casaco que não eram seus — o toque final planejado pelos companheiros. De tão aborrecida que estava, a vítima nem percebeu e os vestiu assim mesmo. Mas não esqueceu de puxar o famoso guarda chuva que estava encostado na parede, e saiu com ele debaixo do braço.
Os que ficaram riam de mais esta última situação, e fizeram um brinde ao sucesso do plano.

Na manhã seguinte, o anfitrião do jantar — e principal mentor do plano — recebeu um telefonema.
Não conseguiu acreditar na notícia que estava recebendo, e a princípio achou tratar-se de uma vingança do “reloginho suíço”, depois das barbaridades que havia sofrido em suas mãos.
— É verdade mesmo. Ele morreu — afirmou um dos convivas.

Tinha certeza de que, assim que chegasse à casa do amigo, para o velório, descobriria toda uma farsa armada. Estaria o metódico velho finalmente demonstrando senso de humor?
— Eu não vou conseguir dormir em paz, depois do que fizemos, se isso for verdade — dizia a maioria dos cavalheiros que estavam no jantar da noite anterior.
À hora marcada para o velório, o grupo de colegas que pregou a peça estava na casa do amigo. Caixão, coroas de flores, uma viúva chorando e pessoas de preto. Parecia mesmo um velório real. Ainda mais com aquele defunto estirado rígido, trajando luxuoso terno, com os dedos entrelaçados sobre o peito e algodões nas narinas.
Era mesmo ele. Mas estávamos esperando que, a qualquer minuto, se levantasse daquele caixão, tentando pregar um enorme susto. Ficamos olhando atentamente, por muito tempo, para seu rosto imóvel.

Só isso. Nenhuma peça pregada.
Ou talvez tenha sido aquela a grande peça que ele armou para vingar-se, morrendo de verdade.

Os colegas ficaram um bom tempo sem conversar depois do acontecido, até que finalmente marcaram outro jantar, meses depois, no horário de sempre.
Era uma noite nublada e nevoenta.
Um tanto incomodados, os colegas tocaram pouco no assunto.
Às vinte horas e trinta minutos, no meio do jantar, a campainha tocou.

— Não havia ninguém na porta, senhor — informou o criado.

— Devia ser alguma criança brincando. Ou então, os senhores sabem, o vento...

Na hora da despedida, um dos presentes observou algo no chão, ao lado da porta, e perguntou, assustado:
— De quem é este guarda-chuva?


Terceiro lugar:

FOBIA DICTIÓPTERA, de Johnatan Ferreira

Elas estavam ali, ele sabia. Escondidas nos cantos, observando-o, julgando-o e planejando a melhor maneira de atacá-lo. Seus corpos achatados subindo nas paredes ou reunidas em buracos escuros e nauseantes vivendo em colônias e cidades. Até podia ouvi-las! Falando mal dele, murmurando coisas como demônios saídos do inferno ocupando pequenos e nojentos corpos.

Uma lembrança remota martelava-lhe a cabeça. O seu primeiro contato com elas, quando os seus dedos roçaram inconscientemente aquele tórax amarronzado, com asas cobrindo o abdômen segmentado. Ele, num movimento reflexo se agitando e a antena do ser encostando em sua palma e as patas... Oh!As patas! Gritou na hora, correndo para o banheiro, lavando suas mãos que encostaram no inseto viscoso. Sabão, desinfetante, detergente, água sanitária, álcool... o nojo se avolumava e a vontade de raspar a pele da mão com uma faca não lhe parecia na hora tão insana.Demorou para sentir-se completamente limpo.

A partir daquele dia a repugnância por baratas o inundou e uma alegórica fobia alojou-se em seu cérebro. Em seu apartamento, inseticidas banhavam os cômodos e superfícies tocáveis. E nenhuma barata jamais o importunou.

Mas agora ele não estava em seu apartamento. E errônea e estupidamente esquecera qualquer inseticida.

E o pavor o dominava.

A escuridão se instalava no quarto, densa e pesada, no momento em que se dava conta em que enrascada se metera.

Ele rapidamente pegou uma vela que estava na gaveta da cômoda. Depois pegou um fósforo no bolso de trás da calça jeans que se encontrava na quina da cama, ali guardada para acender seus habituais cigarros. Não se atrevia a afastar os olhos da abundante escuridão que pairava sobre si, temendo que se assim o fizesse algo caísse sobre ele e...

O estalar e silvar do fósforo quebrou o feitiço perverso, e um pequeno brilho de luz trêmulo afastou a escuridão, levou-o até a vela, acendendo-a e logo depois o candelabro encima da cômoda.

Ele estava na cama, sozinho e desprotegido, enquanto as baratas mancomunavam contra ele. Tramando coisas a qual não podia defender. Pensou em acender a luz, mas Elas estavam no chão e se pisasse em uma...

Tremeu.

Tentou dormir, querendo afastar aquilo; sua mente racional tentando derrotar freneticamente o seu crescente terror, lutando para a controlar a situação.

(Não tem nada!)

Um ruído perto do ouvido.

Virou o rosto não avistando nada.

Começou a rezar, vendo, porém ser perceber seu desespero se alastrando rapidamente como morcegos em uma casa e suas orações se transformando em um misto de palavras sem nexo.

Começou a ouvir o zumbido de uma vespa que batia descontrolada de encontro ao teto, quando sentiu algo roçar em seu cabelo. Tremeu por inteiro e numa ação reflexa levou a mão até lá, tentando afastar qualquer corpo estranho que queria se alojar ali.

Nada novamente.

O coração batia descompassadamente. O peito subia e descia numa respiração entrecortada e assustada. Sentiu outro roçar. Agora no braço. O agitou num movimento descontrolado.

Elas estavam ali, sem duvidas.

Ouviu algo se chocando, como o quebrar de um graveto. Mas aquele ruído não era nenhum barulho normal da noite, não era o som da madeira a estalar, nem dos canos a ressoar. Tinha a certeza que era o esqueleto externo rígido das baratas batendo um contra o outro.

Um frio na barriga. Os olhos agitados. Engoliu saliva e seu pomo de adão subiu e desceu conforme o liquido que escorria goela adentro.

O zumbir da vespa é como um prelúdio.

Ele suava, não de calor, mas de medo. Puxou a coberta para junto de si numa tentativa tola e infantil de se proteger. Ele se encolheu como uma criança com medo do bicho papão.

O silêncio se instalou. A pausa para o acontecimento clímax.

Até que deu um grito, sentindo um roçar em seus dedos dos pés. Os balançou tentando tirar os seres repugnantes que subiam por ali. Eram baratas! E elas subiam por seus pés, avançando ainda mais pelas pernas, joelhos, coxas... com patas asquerosas e nojentas.Elas estavam ali! E suas sombras se alastravam pela parede. O abrir de asas como anjos. Anjos do inferno.

Fechou os olhos e não queria ver aquelas antenas móveis, longas e filiformes que serviam para identificar os alimentos antes de devorá-los com suas mandíbulas horizontais. Os pêlos nas suas 6 pernas, longas e finas; o corpo achatado permitindo entrar em lugares estreitos; a cabeça cuneiforme, algumas possuíam asas. E os olhos... podia jurar que os olhos eram vermelhos incandescentes. Vermelho sangue.

Aqueles insetos nauseabundos avançavam por seu corpo. E ele se virava e se mexia descontroladamente, tentando impedir que eles subissem ainda mais. Era enlouquecedor ter sua epiderme tocada por aquilo.

(Oh Deus!)

Gritava mais alto, pedindo socorro. Com as mãos batia nas baratas, esmagando-as e fazendo com que seus esqueletos externos se quebrassem e uma gosma verde e branca saísse. E essa gosma tocava sua pele, gelada e nauseante. Vomitou, expelindo uma bílis amarelada que escorria por sua boca e empapava a cama. Sua cabeça, as vezes, encostava no vomito tendo sua face inteiramente molhada pelo liquido desagradável.

As baratas vinham debaixo de sua roupa, eram dezenas, centenas, milhares... Algumas tentavam entrar em seu anus, avançando pelo reto. Outras ainda forçavam a se introduzir no buraco do seu pênis, entrando pela sua uretra.

E o pavor deu lugar a dor.

Ele olhou para baixo não avistando nada abaixo da cintura, era como se tudo tivesse desaparecido, mas não, eram as baratas que o cobria semelhante a um cobertor marrom-escuro que avançava cada vez mais, sendo iluminadas pela luz amarelada da vela acesa.

E tudo isso era acompanhado pelos barulhos repugnantes que aqueles insetos faziam, os exoesqueletos se chocando, as garras arranhando, as asas farfalhando.

O horror. O sofrimento. A dor. A vertigem. O desespero. Tudo se misturava dentro do âmago de seu ser, se mesclando e corroendo sua sanidade. Correndo ele próprio.

As baratas alcançaram sua barriga, o seu peito, os seus braços, os seus ombros, a sua face... e elas subiam pelo queixo e entravam pelas criaturas nojentas.

Ele tentava cuspi-las, sua língua passando nos corpos asquerosos delas.

Então ele começou a morde-las, fechando a boca e mastigando-as. A gosma verde e branca era acompanhada pelas patas e cabeças das baratas em pedaços. Mas eram tantas...

E ele vomitou de novo perante tamanho asco, o vômito grudando na garganta, impedido de sair por causa dos insetos que ali se alojaram. Ele estava se asfixiando e numa tentativa desesperadora de sobreviver, engoliu tudo. Num trago só. As baratas mortas e o vômito. Depois fechou a boca novamente, não se importando com o gosto pavoroso. Mas, mais baratas tentavam entrar ali, e ele conseguia impedir e chorava e não conseguia.

E elas entraram.

E invadiram toda a boca e avançavam indo goela adentro, pela garganta, pela faringe... e elas também tentavam entrar pelo nariz, tapando as narinas completamente.

Ele não conseguia mais respirar.

Agora, as baratas tapavam-lhe os olhos molhados pelas lagrimas e iam cobrindo inteiramente sua face, toda a cabeça. A dor... e então ele soube mais do que nunca que certamente iria morrer.

As baratas cobriam completamente sua pele, pisando nele com suas pequenas garras e patas. Elas e ele, ali, formando um só. Uma massa informe, amarronzada e abominável.

Ele deixou-se ficar assim, pois nada podia fazer ou podia protegê-lo, nem o cobertor, nem a luz, nem a vespa, nem nada.

E quando a chama da vela se apagou, afundando em sua própria cera, as baratas ainda estavam ali, dando seu ultimo abrir de asas angelicamente diabólico; as baratas e o frio da morte.

O terror é como uma bomba, se não explode, não serve para nada.

4 comentários:

L.F. Riesemberg disse...

Mário, valeu pela divulgação. Se puder arrume o finalzinho do meu conto (falta um "?"), blz? Abraço!

Mario Carneiro Jr. disse...

Arrumado! Abraços!

Äмbзr Gïrℓ ⅞ disse...

parabéns aos vencedores.

Blog Suicide Virgin

Giane disse...

Céus...
Parece que adivinhei o que queria dizer "DICTIÓPTERA".
Ainda assim consegui ler o último conto até o fim, mesmo que para isso tenha sido preciso ligar a luz.
Aff - que nojo!!

Os outros contos também estavam ótimos.

Parabéns aos vencedores!

Beijos mil!!!