sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Trecho do conto A Fera de Vendaval do Sul

Meus rebentos noturnos, tenho uma triste notícia para dar: por enquanto, estou sem material para postar aqui (ah, quase posso ouvir os lamentos inconsoláveis). Sabem como é, não quero gastar toda minha munição, afinal, estou trabalhando em um livro de contos, e desejo que a maior parte do material seja inédito. Portanto, vou postar apenas um trecho de um conto meio longo, que se chama "A Fera de Vendaval do Sul". Acho que esse pedacinho quase funciona como uma história independente. Então, aí vai:



A FERA DE VENDAVAL DO SUL

A garota corria pela floresta escura, sem olhar para trás.
Não pensava no namorado morto na clareira, a mente concentrada apenas na própria sobrevivência. Conhecia bem aquele caminho entre as árvores, mas isso não estava lhe dando vantagem. Podia ouvir o barulho das folhas secas sendo esmagadas logo atrás de suas costas.
Cada vez mais perto.
A trilha é muito aberta, ele vai me alcançar! - pensou.
Entrou na mata fechada, torcendo para que seu enorme perseguidor não conseguisse se movimentar por ali. Sequer sentiu a dor da vegetação e dos espinhos que arranhavam sua pele. Abaixou a cabeça ao passar por um galho mais grosso e saltou o tronco de uma figueira morta. A noite era clara o bastante para que enxergasse esses obstáculos maiores, o desespero lhe dando uma agilidade quase sobre-humana. As passadas pareciam se distanciar, mas não podia ter certeza. Parecia que todos os cães da cidade haviam decidido latir ao mesmo tempo, dificultando a distinção de outros sons.
Após muitos metros de passos acelerados e ar gelado entrando pelos pulmões, ela conseguiu avistar as luzes das casas mais próximas. Por um momento acreditou que bastaria chegar à rua para escapar com vida, afinal, o monstro que a perseguia não poderia existir no mundo civilizado, só na floresta escura em que moravam os pesadelos.
Com horror, escutou um galho sendo estraçalhado a menos de dois metros de suas costas. Não era justo, ela estava tão perto! Impulsionada pela adrenalina, conseguiu aumentar ainda mais a velocidade das pernas. De súbito atravessou o limiar entre floresta e terreno baldio, onde o capim alto poderia esconder algum buraco. Não adiantava pensar nisso, tinha que continuar. Já conseguia ver as pessoas nas janelas das casas, brigando com seus cães que ladravam de forma enlouquecida. Tentou gritar por socorro, mas a voz não conseguia ultrapassar a barreira de sua própria respiração ofegante. As passadas estavam cada vez mais audíveis.
Só mais um pouco, só mais um pouco...
Repentinamente, o som de passos parou.
Ele desistiu! – concluiu com alívio.
Mas estava enganada.
Na verdade, o silêncio indicava que a criatura estava no meio de um salto.
O impacto nas costas da garota foi esmagador, mas não a matou.
Os dentes em sua garganta sim.

5 comentários:

Giane disse...

Oi, Mario!

Ah, essa não, que crueldade, deixar a gente só na vontade...
Humpf! Tinha que ser escritor de horror mesmo...

Ahsuahahah!!!

Brincadeiras á parte, tomara que você possa postar algo novo brevemente!

Até lá, Beijos mil e Boas Festas, Menino!!!

Henry Evaristo disse...

Muito bom o conto A FERA DE VENDAVAL. Do jeito que deve ser um conto de lobisomem. Muito bom mesmo.

Gostaria de publicá-lo na Câmara dos Tormentos se vc me autorizar.

Entre em contato:

voxmundi80@yahoo.com.br

(Henry Evaristo)

konthos disse...

Deu uma passada pelo seu blog e achei bem legais os seus contos. Parabéns!
Gostaria de publicar um ou outro conto seu em formato digital (pdf), com arte de capa, diagramado especialmente para leitura no computador ou laptop e, claro, com os seus direitos assegurados. Se você me permitir, gostaria de publicar no blog http://editorakonthos.blogspot.com
Trata-se de um projeto que ainda está bem no começo, mas aos poucos, espero reunir alguns escritores para fazer o blog funcionar melhor. Enfim, se estiver interessado, o meu email é editor.konthos@gmail.com
Por enquanto é isso.
Abraços

Wellington

Caio Tadeu de Moraes disse...

Conto maravilhoso, Mario..

Você me mostrou que há coisas muito mais atormentadoras que pragas bíblicas apocalípticas e enfermidades sem cura...

O desconhecido da floresta, aflorece nossos pesadelos quando nos encontramos fora da segurança do concreto e da organização social.. um meio que há muito tememos por suas probabilidades caóticas e falta de controle.. quando nos esquecemos como sobreviver ao abandonar as florestas e construir a civilização...

Cara.. você é um dos maiores escritores que tive o prazer de conhecer na Internet..

Nunca pare de escrever!!

E uma ótima semana!

victor meloni disse...

Rápido, cruel e, claro, sem digressões desnecessárias. Excelente, Mário. Um conto arrebatador.