terça-feira, 5 de maio de 2009

Conto: MONSTROS

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E agora, um conto que só vou postar pela falta de tempo e coisa melhor. Não é que eu não goste dele, acho que é bom (embora um pouco pueril em certo aspecto), mas há um detalhe que só fui perceber quando já tinha terminado a história, e que me incomodou muito (quem já leu todos os meus outros contos, vai entender). Enfim, aqui está a vidraça, então preparem suas pedras, HAUAHAUA!

Abraços!


MONSTROS

- Crianças, parem com essa baderna e voltem pra mesa! – Valéria gritou para os filhos, algo tão eficaz quanto pedir a um tornado que não destruísse o celeiro. Almofadas jogadas, sofás fora do lugar e um vaso balançando em cima da mesa era o saldo de uma rápida passagem dos anjinhos hiperativos. A mãe correu para salvar a peça de cerâmica, lembrança da primeira viagem com o marido até a Tailândia. Teria conseguido caso não estivesse do outro lado da sala. Fechou os olhos para não ver os cacos se espalhando pelo piso, porém o barulho já foi suficiente para machucar fundo.
- Leonardo! Renata! Estou falando sério!
Colocou o DVD Piratas do Caribe II, que as crianças adoravam. Pensou que assim conseguiria acalmá-las um pouco, talvez o suficiente para que terminassem o jantar. Foi um erro. Em menos de dois minutos o casal de pimpolhos pulava sobre a bancada da cozinha, brandindo talheres como se fossem espadas. Encostado na geladeira, Arthur assistia a tudo, impassível.
- Desçam daí, vamos! – Valéria berrou ao entrar, no entanto os filhos já estavam correndo pelo corredor. Agora, fingiam que eram carros de corrida. Não pilotos, queriam ser carros mesmo. Quando entraram em um dos quartos, foi possível ouvir outro objeto sendo destruído. Um som bem comum ultimamente.
Ela olhou para o marido de maneira suplicante e enraivecida. Dois sentimentos difíceis de juntar, mesmo assim conseguiu com extrema competência. Ele caminhou em direção à sala, balançando a cabeça.
- Eu te falei que não era uma boa idéia.
- Eu sei disso, mas você podia ao menos me...
- Não.
Os infantes voltaram para um novo ataque, esbarrando nela enquanto se engalfinhavam.
- Crianças, por favor...
Uma cadeira foi jogada contra a parede.
- Vocês não estão me escutando, será que...
Maçãs e bananas de cera voaram pelos ares.
- Se vocês não pararem agora...!
A garrafa sobre a mesa foi derrubada, espalhando todo seu conteúdo pelo chão.
- EU VOU LIGAR PROS MONSTROS E PEDIR QUE VENHAM BUSCAR VOCÊS!!!
O efeito da frase foi mágico, quase milagroso. Os dois pararam de imediato e olharam para ela, a menina com terror, o garoto com ceticismo.
- Sim, isso mesmo! Eu avisei, é isso que acontece com crianças mal-educadas!
O choro de Renata veio como o vazamento de um dique, os bracinhos enlaçando as pernas da mãe e implorando para que não fizesse aquilo. Leonardo ainda desafiou:
- Não tem monstro nenhum...
- Não? NÃO? Pois muito bem mocinho, hoje você irá tirar a prova.
Valéria agarrou os dois pelos pulsos e os arrastou para o quarto. Olhou com desaprovação para os brinquedos espalhados e rabiscos de giz nas paredes brancas e pôsters da Disney. Sentia-se sem energia para reclamar disso agora, então simplesmente apagou a luz e os encarou sem piedade.
- Agora deitem e durmam! Se não ouvir mais nenhum barulhinho, pode ser que eu volte atrás. Só que não prometo nada.
Então a porta bateu e foi trancada por fora, irredutível como uma sentença de morte. Em silêncio, as crianças foram se deitar.

Passaram-se vários minutos antes que Leonardo falasse com a irmã, que soluçava baixinho.
- Deixa de ser boba, Rê... Não existem monstros não, a mãe só quer assustar a gente.
A menina enxugou os olhinhos com a mão.
- A mamãe nunca mente...
- Ela já mentiu sobre o Papai Noel, lembra? Disse que ele viria na noite do natal, só que quem trouxe os presentes foi nosso pai mesmo!
Renata ficou em silêncio, digerindo a informação. Já mais calma, sussurrou:
- Mas por que ela tá nos enganando?
- Porque ela quer que a gente seja bonzinho... – concluiu, repetindo a mesma conversa que sempre tinham quando colocados de castigo. – Acho que é melhor a gente começar a se comportar, né?
- É...
Feita a promessa, tão sincera quanto fugaz, os irmãos sossegaram um pouco. Quando a mãe também se acalmasse eles fariam seus juramentos, seriam perdoados e tudo ficaria bem. Por enquanto, o melhor era dormir.
No entanto o sono demorava a chegar, algo compreensível naquele estado de agitação com resquícios de fome. Leonardo se revirava em seu colchão quando a irmã chamou:
- Léo... Posso deitar com você?
Ele afastou o cobertor, sinalizando que sim. Renata desceu da cama devagar para não fazer barulho, porém chutou um boneco do Shreck sem querer. O brinquedo bateu na parede com estrondo e ela voou para debaixo das cobertas com o irmão, ambos imóveis, na expectativa.
Do quarto dos pais veio algo parecido com um resmungo, seguido do som das teclas do telefone. As crianças se abraçaram com força, o tremor do corpo da menina contagiando o dele. E então, escutaram as cruéis palavras da mãe:
- Alô. Não... Não importa como consegui esse número, apenas anote o endereço: Rua das Andorinhas, número 67. Tem dois deles no quarto à esquerda, no fim do corredor. Adeus.
Leonardo forçou um riso baixo e comentou “até parece”. Não acreditava em monstros, não mesmo! Porém o medo começou a aumentar do mesmo jeito, indiferente à sua descrença. Com os olhos para fora do cobertor, averiguou cada canto, cada sombra. Fazia tempo que nenhum dos dois temia o escuro, mas e as coisas que moravam nele? Por algum motivo lembrou das criaturas de Harry Potter, trasgos, centauros e gigantes, que pareciam tão inofensivos nos livros e filmes, no entanto tão arrepiantes na atual situação. Afastou tais pensamentos, a lamúria de Renata despertando seu instinto protetor de irmão mais velho. Precisava ser corajoso, assim como fora naquela vez... Qual vez?
O fragmento de uma memória enterrada revelou-se por um instante: ele e a irmã em um canto do quarto, abraçados, a porta sendo arrebentada, os vultos se aproximando... Eles já haviam sido atacados por monstros antes? Não, só podia ter sido um pesadelo, a lembrança era nebulosa demais para ser verdadeira.
Um novo barulho interrompeu suas conjecturas. A porta da suíte foi aberta, em seguida seus pais correram até a sala da frente. Leonardo gritou:
- Pai! Mãe! Parem com isso, vocês tão assustando a Renatinha!
Então escutaram o barulho do carro saindo da garagem, cantando os pneus. A garota estava aos prantos mais uma vez.
- Calma Rê, calma, a mamãe só tá querendo deixar a gente com medo, ela acha que continuamos fazendo bagunça e quer nos dar uma lição de verdade...
- Vamos derrubar a porta, quebrar a janela, vamos fugir! – ela sugeriu, desesperada.
- Caaalma, você não vai querer deixar ela mais braba ainda quando voltar.
Na verdade ele já nem se importava com o eventual estado de nervos da mãe, apenas não queria dar o braço a torcer. Continuou afirmando que era tudo invenção e, aos poucos, Renata voltou a sossegar. Cantou uma musiquinha que a irmã gostava e assim prosseguiu por vários minutos, até completar meia-hora. Conforme o tempo passava era mais fácil afastar o temor, a mentira cada vez mais evidente. Que besteira, onde já se viu um serviço de ligação para monstros? Aquilo era...
Novos sons invadiram a casa.
Alguém parecia estar entrando.
Ambos aguçaram os ouvidos, atentos e paralisados. Escutaram portas sendo abertas e passos leves em cada cômodo. O menino concluiu que os pais estavam exagerando.
- A gente sabe que são vocês, parem com isso!
A pancada na porta do quarto fez os dois pularem de susto. Outra batida veio, e a madeira grossa começou a rachar.
A garota berrava e tampava o rosto. Leonardo pulou e empurrou a outra cama contra a porta, segurando. Sentia o impacto se alastrando pelos braços, os monstros abririam uma passagem em segundos.
Algo saltou através da janela e caiu bem em cima de Renata, que chiou como um animal encurralado. Antes que o menino pudesse ter qualquer reação, o grito da irmã parou de súbito. Seu sangue jorrou até o teto numa fonte rubra.
O garoto se afastou daquela cena dantesca, chorando de tristeza e perplexidade. O que estava acontecendo? Aquilo não parecia um monstro, e sim um homem! A madeira finalmente cedeu às machadadas dos outros invasores, que ao entrar jogaram uma rede sobre a criança. Somente agora seu instinto de sobrevivência foi despertado, as mãozinhas rasgando o tecido com força sobre-humana. Porém, aquele que matara sua irmã se aproximou depressa demais.
Antes que Leonardo conseguisse se libertar, a sangrenta estaca foi enfiada em seu coração.

O mais moço dos três caçadores de vampiros abriu o blecaute que tampava a janela, a luz do sol entrando para iluminar os pequenos cadáveres. Caso estes não tivessem dentes afiados e pele branca como açúcar, seria possível acreditar que ainda eram crianças humanas. Um dos outros estendeu a mão, fechando os olhinhos infantis com pesar. Era o décimo sexto caso parecido. Obra de Arthur e Valéria, o maldito par de sanguessugas que perseguiam há anos, sem sucesso.
O líder do grupo caminhou aborrecido até o quarto do casal, já sabendo o que encontraria em cima da cama.
O bilhete dizia “Obrigado novamente”.

Arthur acelerou a BMW pela rodovia, ultrapassando os outros carros com uma segurança sobrenatural. Mesmo o insufilme sendo G5 - o mais preto possível - os dois usavam óculos escuros. Era lenda que os vampiros viravam pó quando expostos ao sol, porém seus olhos eram particularmente sensíveis aos raios ultravioleta.
Colocou na última marcha e descansou a mão no joelho de Valéria, que olhava distraída pela janela negra. Apaixonar-se por uma excêntrica fora uma péssima idéia. Logo que a conheceu, achou deliciosamente extravagantes as suas reclamações de saudades da vida humana. Assim, quando ela decidiu “tentar se integrar às pessoas”, ele aceitou suas loucas exigências: o casamento civil, viagens pelo mundo, camas ao invés de caixões, etc. No entanto, sua súbita vontade de ter filhos era algo que passava dos limites. Como não podiam fazer isso pelos métodos normais, ela passou a transformar crianças em vampiros, hipnotizando-as para acreditarem que os dois eram seus pais. Valéria queria que os infantes continuassem agindo como humanos, então não lhes ensinava nada sobre sua nova condição de mortos vivos. Dessa forma, o casal era obrigado a sustentar as criaturinhas inúteis, levando sangue para casa. O risco era emocionante no início, mas com o tempo se tornou um tédio! Por sorte, sua parceira enjoava dos fedelhos assim que surgiam as primeiras dificuldades, quando os rebentos se revelavam manhosos demais, ativos demais, ranhentos demais e, na maioria dos casos, melancólicos demais. Contudo, não tinha coragem de eliminá-los – nem deixava que ele o fizesse. Seu senso de moral não permitia o infanticídio dos “filhos”, ao menos não pelas próprias mãos. O remédio era chamar os sempre prestativos caçadores de vampiros, que além de estarem presentes em todas as cidades maiores, também eram bichos-papões convenientes.
- Não acha que está na hora de parar, adorada?
- Com o quê?
- Você sabe, essa sua mania de brincar de ser humano.
- Se não consegue me levar a sério, Arthur, talvez deva voltar para sua existência medíocre de caçador solitário.
- De fato, talvez deva – ele respondeu, mesmo sabendo que não faria isso. Ainda não. A amava com intensidade, mas se não conseguisse convencê-la, iria para bem longe e mataria esse amor à força. Matar era sua especialidade, afinal de contas.
- Nós nunca moramos no Paraná. Acho que podemos chegar em Curitiba ainda hoje, o que acha? Valéria?
Ela já não prestava atenção, concentrada no erro que cometera. Pensou que transformar um casal de irmãos solucionaria o problema da solidão, que a maioria dos seus filhos anteriores havia enfrentado. Até resolveu, mas em conseqüência gerou novas dificuldades, com os pirralhos se unindo para enlouquecê-la. Ingratos! Monstros! Tudo bem, a cada fracasso, aprendia uma coisa nova. Não se importava em continuar tentando. Se fosse preciso, transformaria mil crianças até achar uma que servisse.
Ainda encontraria o filho perfeito.

8 comentários:

Aquele disse...

Muito boa a história... cruel, direta... filhinhos do diabo hehe...

Lethéia disse...

Adorei....rsrs bjs

Äмbзr Gïrℓ ⅞ disse...

jamais imaginei vampiros brincando de humanos...

adorei a história.

sucesso!!!

Blog Suicide Virgin

♠کαи∂мαи♠ disse...

Vampiros que brincam de humanos, foi muito criativo, realmente inovador, parabéns, adorei o texto, prendeu minha atenção até o final.

Blog Man in the Box

♠کαи∂мαи♠ disse...

vampiros brincando de humanos foi interessante e inovador, adorei

Blog Man in the Box

_Flávia Tavares_ disse...

muito bom o conto... depois fala que não sabe se merece elogios...a sua lista de premios para o concurso ta cada vez melhor... faço questão de participar, quem sabe[com muita sorte]eu ganho :p
vc poderia fazer um post com tudo explicadinho, os motivos, quem teve a ideia, os regulamentos, a iniciativa dos autores do concurso.ai eu postava no blog para dar mais divulgação =D qualquer coisa manda pra mim ta
bjs

Babi disse...

Como sempre vc escreve bem e detona! Adorei!

Caio Tadeu de Moraes disse...

Interessante Mario, criaturas mitológicas realizando experiências com suas presas, exatamente como nós fazemos com o gado, para ele ficar mais gordo e nutritivo (ta, nada a ver). Não sei se você fez uma critica indireta, ou eu estou viajando, mas sua proposta me lembrou muito o comodismo da era moderna, mostrando pessoas – no caso, vampiros – que, vendo os seus projetos atuais se transformar em algo não esperado a principio, abandonam tudo, mesmo se toparam uma espécie de compromisso para com a sua cria (me lembrou eu e meus contos);

Como manda as linha dos seus contos, começa de um jeito, dai uma surpresa colide no trajeto da história e tudo muda; um talento nato para reviravoltas. De relance, eu pensei que eles iriam enjoar da bagunça e assassinar os filhos – seguindo o exemplo de vários casos noticiados, mostrando mães e pais dando um fim nas crianças por um motivo qualquer – mas era óbvio demais para você. Um ótimo conto, que adiciona detalhes intrigantes à mitologia vampiresca.

Esperando o próximo e que tudo transcorra bem no concurso!