Pois é, amigos, sei que estou devendo um conto pra vocês, e é por isso que hoje... não tem conto novo não! Huahauaha! Desculpem, estou sem tempo pra escrever, ando até pensando em abandonar a escrita por uns tempos, até me situar (porcaria de vida adulta!). Mas enfim, vim falar que estou participando da Juvenatrix 121, do especialista em terror Renato Rosatti.
A edição tem 27 páginas com notícias e divulgação de eventos e bandas interessantes, o conto Bruxa!, de minha autoria, além de contos de Matheus Ferraz e Rodrigo Souza, artigos de Marcelo Milici, André Bozzetto Junior, Matheus Ferraz e do próprio editor. A ilustração da capa é de Walter Junior.
Para solicitar uma cópia, envie um e-mail para renatorosatti@yahoo.com.br. E acompanhe as novidades do horror nos blogues Infernotícias e Juvenatrix. Abraços!
A escritora Ana Cristina Rodrigues, ansiosa por arrumar sarna para se coçar, resolveu organizar o Prêmio Melhores do Ano (em literatura fantástica). Antes de qualquer coisa, parabéns a ela pela (extrema) coragem da iniciativa (clap clap clap!).
Em segundo lugar, vou passar um endereço com as regras do concurso, que servirá como mapa para aqueles que desejarem votar. É possível votar em vários endereços diferentes, então vocês podem tirar todas as dúvidas no seguinte endereço: http://comunafc.wordpress.com/
Agora, vou fazer minha propagandinha, pois estou concorrendo (direta e indiretamente) em várias categorias, e não me importaria em ganhar um ou outro prêmio, rsrs. Por isso, peço os votos dos frequentadores da Lua Mortal que realmente acham que meu trabalho merece algum prêmio.
Vou explicar o básico sobre a votação: é possível votar em até três candidatos na maioria das categorias, com três exceções: na categoria "contos", é possível votar até em cinco histórias, e nas categorias não-ficção e Ezines, deve-se votar em apenas um candidato. Ah, é só vale votar uma vez, ok? Importante ressaltar que é preciso votar em pelo menos seis categorias (coincidentemente, concorro em seis). Vou enumerar cada trabalho onde sou elegível, todos em suas respectivas categorias. Também vou colocar dois links diretos para os locais de votação, para facilitar ainda mais a vida de vocês (tão vendo como sou legal?). Para quem for votar pelo orkut, é necessário tornar-se membro da comunidade. Estou concorrendo aos seguintes prêmios:
Categoria "Colunistas/Resenhistas/Comentaristas"
Mario Carneiro Jr - Blog Biblioteca Mal Assombrada. Vocês podem votar pelo Orkut ou pelo Blog.
Categoria "Contos" Aqui, não vai haver uma lista de votações; é preciso que o votante escolha os contos (até cinco) e coloque o nome destes, incluindo a obra ou mídia onde foi publicado, e o nome do autor. Pode votar em mais de um conto do mesmo autor. Tive algumas publicações esse ano, uma na Scarium Megazine, outras em livros e sites. Vou listar todos, incluindo alguns que podem ser conferidos na internet (estes estão com link para o endereço onde podem ser lidos). Meus contos que podem ser votados são:
"Um Estranho Incidente Noturno" - Livro Galeria Do Sobrenatural - Mario Carneiro Jr "Lar" - Livro Invasão - Mario Carneiro Jr "O Salteador Noturno" - Livro Alterego - Mario Carneiro Jr "Tormento" - Livro Draculea - Mario Carneiro Jr "Bruxa!" - Scarium Megazine 25 - Mario Carneiro Jr "O Confessionário" - Site Contos Fantásticos - Mario Carneiro Jr "A Rinha" - Site Contos Fantásticos - Mario Carneiro Jr "O Lençol" - Site Contos Fantásticos - Mario Carneiro Jr "O Símbolo Circular - Site Contos Fantásticos - Mario Carneiro Jr Vocês podem votar pelo Orkut ou pelo Blog.
Categoria "Coletâneas"
Participei das seguintes coletâneas:
Alterego (org. Octavio Cariello - Terracota) Draculea (org. Ademir Pascale - All Print) Galeria do Sobrenatural (org. Silvio Alexandre - Terracota) Invasão (org. Ademir Pascale - Giz Editorial) Vocês podem votar pelo Orkut ou pelo Blog.
Categoria "Revistas e Zines" Participei das seguinte revista:
Scarium (n. 25) Vocês podem votar pelo Orkut ou pelo Blog.
Categoria "Ezines" (escolher somente uma obra) Participei de:
Juvenatrix - 115-119 Terrorzine - 04-16 Vocês podem votar pelo Orkut ou pelo Blog.
E são essas as categorias onde sou elegível.
(Edit) Eu tinha passado também os trabalhos dos outros autores, mas agora que o concurso acabou, resolvi tirar, pois o post estava gigantesco. Obrigado a todos que votaram em mim!
Os dois prisioneiros foram escoltados até um estranho e luxuoso salão, onde diversas portas aguardavam fechadas. O rei e seus súditos esperavam com ansiedade, enquanto eram servidos de vinhos exóticos. A cada um dos cativos, eram concedidos os seguintes direitos: fazer uma pergunta ao oráculo, que teria que dizer a verdade, e escolher uma das portas, onde suas sentenças de morte seriam executadas de imediato.
- Qual das passagens me trará menor dor? – questionou um dos condenados, sob murmúrios de aprovação da platéia. O velho posicionado sobre um tablado apontou:
- A terceira.
O preso respirou fundo e puxou o trinco, apenas para ser carbonizado pelas chamas que saíram lá de dentro. Gritou e caiu no piso de mármore, contorcendo-se com agonia atroz e abrasadora. O fogo se apagou e ele ficou lá deitado, gemendo como um cão recém-nascido. Levou vários minutos para morrer.
- Desgraçado, porque você mentiu?! – perguntou o outro condenado, com revolta.
- Não menti – disse calmamente o oráculo, provocando uma palidez extrema no rosto do cativo. – Agora escolha sua porta.
Ao lado da minha casa, existe um terreno baldio. Capim e plantas daninhas crescem no solo com velocidade alarmante, obrigando o anônimo proprietário a pagar dois jardineiros para limpar o local. Eles aparecem de tempos em tempos com suas foices e máquinas barulhentas, com serras giratórias que gritam de forma estridente. É sempre um alívio quando eles chegam, pois o mato alto pode servir de abrigo para ladrões. Desconfiança que me força a ficar atento, sempre que chego em casa de madrugada.
Há poucos dias eu estava saindo da garagem, quando vi um estranho movimento no limite entre o terreno e a rua. Era uma oscilação tranqüila, reptiliana. Parei o carro para olhar melhor o grande lagarto que desaparecia entre as folhas, a comprida cauda com listras amarelas se arrastando sem pressa. “É um teiú”, identifiquei de imediato. Para alguém nascido na cidade grande, há algo de mágico em ver um animal silvestre de perto, ainda mais tão próximo de nosso lar. De fato, é uma das poucas coisas legais de morar no interior.
O mato já estava meio alto, o que indicava que os jardineiros viriam logo. Isso me preocupou um pouco, pois o réptil poderia ser ferido involuntariamente. Ou voluntariamente, pois sempre preciso lembrar que nem todo mundo gosta de animais como eu.
Ao voltar para casa mais tarde, fiz uma busca pelo terreno, vencendo meu receito dos insetos e aranhas. Sei que parece frescura, mas é que sou alérgico. Enfim, minha idéia era capturar o animal e levá-lo para alguma mata próxima. Já trabalhei em um zoológico, e tenho uma leve noção de como lidar com répteis. Porém, após procurar um pouco, desisti; há muitos buracos e troncos ocos onde um lagarto como aquele poderia se esconder. Procurei me conformar, sabendo que esses animais são espertos, e fogem rapidamente quando escutam uma ameaça próxima. O que poderia fazer além de torcer pelo melhor? Bem, eu sempre via quando os jardineiros chegavam, então estava decidido a conversar com eles antes que começassem seu trabalho. Isso deveria bastar para que tomassem cuidado.
Nos dias seguintes, sempre dava uma olhada no terreno baldio ao sair de casa, esperando algum sinal do novo vizinho. Não tive sucesso. Mesmo assim, era agradável pensar que havia um monstro, um dragão escondido por ali. Uma criatura do tempo dos dinossauros, espreitando entre o capim com seus olhos frios, inquietantes. Na minha imaginação, o terreno agora era um cenário pré-histórico, com alguma coisa selvagem rondando nas sombras.
Mas na última quinta-feira, ao voltar para casa, vi o animal parado junto ao meio-fio. Sua imobilidade me pareceu... errada. Estacionei o carro e fui olhar, com o coração aos pulos. Paradoxalmente, desejava que ele não estivesse lá quando eu chegasse. Queria vê-lo fugindo para longe, com aquele andar balançante que os répteis fazem ao correr, a cauda estalando como o chicote de um deus pagão e enlouquecido.
Mas eu tentava me iludir, pois já sabia que ele estava morto. Uma porção do estômago jazia fora do corpo coberto de formigas, indicando que algum trauma causara sua morte. Atropelamento? Ataque de cães vadios? Maldade das crianças que estão sempre brincando por ali? Quem sabe...
Gostaria de ter sido menos preguiçoso, menos acomodado. Queria ter tido mais empenho em levá-lo para um lugar seguro. Mas essas são reflexões vãs, de alguém que não sabe se conseguiria salvar o bichinho.
A única coisa que sei é que sinto um vazio esquisito ao olhar para a antiga floresta pré-histórica, que voltou a ser um mero terreno baldio.
Pessoal, o prazo para tentar participar da coletânea sobre os adoráveis cadáveres semoventes foi prorrogado para 01/03/10. Se você tem uma boa idéia para uma história de zumbis, não deixe de participar. O regulamento pode ser lido em www.cranik.com/zumbis.html. Abraço!
Boa noite, minha querida. Já está confortável debaixo de suas cobertas? Bom, então vou contar a história que prometi.
Aconteceu quando eu tinha mais ou menos sua idade, uns doze anos, quase treze. Eu dormia exatamente como você, sabia? De barriga pra cima e coberto da cabeça aos pés. Meu pai dizia que eu ficava parecendo um morto no necrotério. Ah, papai... Foi por causa dele que tivemos que sair de Curitiba e nos mudar pro interior. Motivos profissionais.
Bom, a cidadezinha era legal até, muito bonita e arborizada, tinha bastante espaço pra andar de bicicleta e tudo mais. Mas também tinha lá seus problemas, tipo, no começo as pessoas olhavam pra mim como se eu fosse um alienígena. Nada pessoal, qualquer um que vinha de fora recebia o mesmo tratamento caloroso. Demorei pra fazer amigos e... Ah, eu já contei isso antes, né? Esquece, vamos voltar ao principal.
O maior problema daquele lugar era o clima, muito mais quente do que eu estava acostumado. As noites abafadas não traziam alívio. Eu queria deixar o ventilador ligado no máximo em minha direção, mas mamãe não deixava. Dizia que eu ficaria doente, então me obrigava a mantê-lo virado pro outro lado, apenas para circular o ar. Estávamos sem dinheiro para comprar um ar condicionado, e ficar com a janela aberta estava fora de questão. Mania de cidade grande, deixar tudo fechado.
Continuei dormindo do mesmo jeito, todo encoberto. Eu já não acreditava que algo agarraria meu tornozelo se ele ficasse para fora, porém o hábito de infância estava enraizado. Pra não morrer cozido, tive que substituir os cobertores por um lençol. Mesmo assim ainda esquentava bastante, eu dormia mal e acordava encharcado de suor.
Então, numa noite que fazia a gente acreditar em coisas como combustão humana espontânea, resolvi largar aquele hábito idiota de uma vez por todas. Porém, ficar com o corpo inteiro descoberto seria um passo muito grande, então deixei apenas a cabeça e os braços para fora. Aliviou o calor um pouquinho. Já era alguma coisa, mas por outro lado, comecei a me sentir incomodado, vulnerável. Como não precisaria acordar cedo na manhã seguinte – era noite de sábado pra domingo – resolvi insistir naquilo, até que finalmente consegui.
Consegui perder o sono.
Fiquei deitado de olhos abertos, pensando em como a vida podia ser um chute no saco de vez em quando. E assim fiquei durante um tempão, até perceber um movimento vindo do armário. Parecia que uma das portas estava se abrindo.
De início, achei que era um vento mais forte passando entre as frestas da janela, mas as cortinas estavam paradas. Fiquei olhando na direção da porta como se estivesse hipnotizado, a abertura ficando cada vez maior. Comecei a ficar com medo, e me cobri inteiro com o lençol.
Não é nada, pensei, isso acontece de vez em quando. Portas que não estão bem fechadas acabam se movimentando sozinhas. Sim, eu repetia esse pensamento sem parar, mas não conseguia afastar aquela impressão cada vez mais forte.
A sensação de que alguém havia saído de dentro do guarda-roupa, e agora estava parado ao meu lado.
Fiquei imóvel, tentando não respirar ou emitir qualquer som, o coração batendo tão forte que chegava a ser doloroso. Assim permaneci durante um bom tempo, até a sensação acabar.
Não tive coragem de conferir se aquilo havia ido embora. Só quando a luz da manhã atravessou as fissuras da janela, consegui adormecer.
Acordei com minha mãe chamando para almoçar. Tirei o lençol do rosto e olhei pra porta que havia visto se abrir durante a noite. Estava fechada. Puxei-a após um momento de hesitação, e como você deve imaginar, não havia nada ali dentro. Minto, havia camisetas e calças penduradas, nada que me deixasse propenso a fugir gritando. À luz do dia, foi muito fácil concluir que havia imaginado tudo.
Quando a noite chegou, eu já não tinha tanta certeza.
Mas não podia falar nada pros meus pais. Papai me daria uma bronca, afinal eu estava velho demais pra ter medo do bicho-papão, e mamãe confiscaria todos os meus gibis de terror. Aqueles antigos, sabe, tipo “Histórias Reais de Drácula” ou “de Lobisomem”... Mais uma vez revistei o armário inteiro, à procura de qualquer coisa estranha. Não encontrei nada, e pra mim estava ok.
Apaguei a luz e fui pra cama, me cobrindo todo. Tá, não havia nada para me preocupar, mas já havia perdido a vontade de abandonar o costume. Além disso, aquela noite estava menos quente, dava pra dormir numa boa. Dormi mesmo, só que acordei com sede durante a madrugada. Sempre deixava um copo de água no criado mudo, mas agora estava meio receoso de estender o braço para pegar. Fiquei nessa dúvida até a secura em minha garganta se tornar insuportável, então tirei o lençol do rosto e olhei pro armário, só pra me certificar que estaria fechado.
Não estava.
Fiquei imóvel, olhando para a porta até meus olhos se acostumarem com a escuridão. Sim, não havia dúvida, estava entreaberta, mas e daí? Dessa vez eu não estava assustado! Bom, não muito. Sentei na beirada da cama e fiquei parado por alguns momentos, tomando coragem para ficar em pé e fechar aquele maldito guarda-roupa. Isso acabaria com meu medo de uma vez por todas. Respirei fundo e levantei, caminhando rápido até o móvel aberto.
Quando comecei a empurrar a porta, uma mão pálida saiu lá de dentro e tentou agarrar meu pulso.
O que aconteceu no instante seguinte eu não lembro. Lembro apenas de estar novamente em minha cama, escondido embaixo do lençol. Sim, teria sido mais inteligente correr até o quarto dos meus pais, mas naquela hora não pensei em mais nada, estava aterrorizado. De maneira frenética, testei com os pés se o lençol ainda estava bem preso embaixo do colchão, e cerrei os punhos sobre a beirada que cobria minha cabeça. Antes que tivesse tempo de negar o que havia visto, senti que o fantasma vinha em minha direção. Não, não estava vendo ele, mas sua presença era tão intensa que dava no mesmo. Eu queria gritar, mas estava paralisado.
Aquilo estava chegando cada vez mais perto, com os braços estendidos.
Minha bexiga se soltou, acrescentando vergonha ao terror absoluto. Cerrei os dentes, esperando o momento em que aquelas mãos de cadáver iriam me arrastar pra fora da cama. Elas já estavam a centímetros do meu pescoço...
E então pararam.
A coisa ficou imóvel durante um longo tempo, depois afastou os braços e começou a caminhar ao redor da minha cama.
Procurava alguma coisa, talvez uma parte desprotegida.
Isso me deu esperanças, achei que se estivesse totalmente coberto, a assombração não conseguiria me pegar. E assim esperei, na expectativa, a garganta tão seca que chegava a doer. Eu tremia e soluçava baixinho, rezando para aquilo ir embora. Se funcionou eu não sei, pois em algum momento perdi os sentidos.
Acordei na manhã seguinte, com meu pai chamando para ir à escola. Pulei da cama e o abracei, chorando, sem me importar se levaria bronca ou não. Criança é tão boba... É óbvio que meu pai não brigou comigo, apenas me abraçou bem forte e perguntou o que havia acontecido. Mamãe também despertou e fomos todos pra cozinha, onde contei tudo. Nossa, eles foram tão legais, me acalmaram e disseram que havia sido um pesadelo, essa coisa básica, mas em compensação não me trataram como aqueles pais idiotas dos filmes de terror, que negam tudo até ser tarde demais. Deus, como sinto saudades deles...
Revistaram o quarto junto comigo, e nem falaram nada sobre o cheiro de urina em minha cama e pijama. Claro, não encontramos nada de anormal, mas eu ainda estava alarmado. Mamãe disse que eu poderia dormir com eles até meu medo passar. Adivinha se não aceitei?
Como não compartilhavam da minha mania de dormir coberto, tive que me enrolar inteiro no meu lençol. Papai disse que eu já não era mais um morto no necrotério, e sim uma múmia. Bom, você pode achar que tudo ficou bem, agora que eu estava no meio de dois adultos, certo? Quem me dera.
Naquela mesma noite, o fantasma retornou.
Saiu do guarda-roupa dos meus pais, provocando um rangido abafado na dobradiça, depois ficou me rondando com avidez. Aterrorizado, comecei a dar cotoveladas na minha mãe, tomando cuidado para não sair do meu casulo. No momento que ela acordou, senti aquilo indo embora. Mamãe acendeu o abajur, olhou pelo quarto – o armário estava fechado de novo - e me garantiu que não havia nada ali.
Assim que ela voltou a dormir, escutei aquele rangido de novo. Acordei-a de novo e tudo se repetiu, com a diferença de que agora havia uma leve impaciência em sua voz. Tentei despertar meu pai na outra vez, mas ele tinha um sono pesado demais. Resignei-me e esperei quietinho, até a aparição desistir.
Aquilo se repetiu por muitas noites. Meus pais insistiam que eu estava sonhando, ou então era o medo me fazendo ver coisas que não existiam. O medo podia fazer a manga de uma camisa ficar parecida com um braço, que tentava puxar a gente para um lugar escuro. Fazia sentido pra eles, e eu me desesperava por não poder provar que estavam errados.
Comecei a sofrer de insônia, queria que a luz ficasse acesa, me recusava a voltar ao meu quarto. Meus pais foram ficando cada vez mais preocupados, achando que aquela fase não era tão passageira quanto supunham. Fizeram minha vontade e tiraram o guarda-roupa do quarto deles. Eu lembro bem dessa noite, porque fiquei mais relaxado e até me arrisquei a dar uma espiada fora do lençol. O abajur estava aceso e fiquei passando os olhos por todo o recinto, na expectativa. Estava quase me cobrindo de novo, quando percebi alguém escondido atrás da cortina.
Ah, dessa vez eu consegui gritar. E como.
É óbvio que não havia nada lá quando meus pais acordaram, e no dia seguinte, me levaram a um psicólogo. Ele disse umas coisas interessantes, que eu estava estressado com a mudança de ambiente e com a solidão, além disso era normal ter medo naquela idade. À medida que fosse crescendo, meu temor iria diminuir de forma gradativa. Nisso ele estava certo, mas demorou algum tempo.
Todas as noites antes de deitar, eu precisava conferir obsessivamente se meu cobertor estava bem preso embaixo do colchão, com medo que se soltasse durante a noite. Nos mudamos de casa e eu ganhei um quarto sem móveis ou cortina, apenas minha cama. Desolado, descobri que o visitante noturno não precisava de nada disso para me encontrar, embora tivesse uma estranha preferência por guarda-roupas.
As noites de terror só acabaram quando comecei a tomar remédios para dormir. Coisa forte mesmo, tarja preta. Logo que eu engolia os comprimidos, corria pra cama e me enrolava em meu escudo de tecido, então esperava aquele doce torpor me envolver.
Os meses foram passando e arranjei alguns amigos. Aquela história de “medo pregando peças” parecia cada vez mais verossímil. Os anos vieram sem eu perceber, minha voz engrossou e comecei a me interessar pelas garotas.
O fantasma era apenas uma lembrança distante quando comecei a diminuir a medicação.
Ainda acordei algumas madrugadas com a impressão de não estar sozinho, porém era bem mais tênue dessa vez. Bastava pensar em outra coisa, e aquilo acabava. Meu temor foi enfraquecendo aos poucos, então um dia, sem mais nem menos, a sensação acabou para sempre.
Eu havia crescido.
Continuei dormindo todo encoberto, mas isso era novamente um hábito, não uma compulsão. Entrei na faculdade e fui morar numa república de estudantes. Agora, eu só lembrava das minhas aventuras de infância quando alguém da roda começava a contar histórias de terror. Eu contava minhas experiências - sempre omitindo o fato de ter mijado na cama - e meus relatos faziam bastante sucesso. Mas eu acho que a Carol nem prestou atenção. Ela era minha namorada na época, e foi ela que levantou meu lençol na primeira noite que passávamos juntos. Lembro de acordar meio sonolento com ela perguntando “por que está dormindo desse jeito, seu bobo?”.
O fantasma agarrou meu pescoço antes que eu tivesse tempo de responder.
Puxou-me pra fora da cama e começou a me arrastar em direção à porta do armário, num pesadelo cego de luzes apagadas. Minha namorada berrava de forma histérica, sem entender o que estava acontecendo. Eu esperneava e lutava em pânico, sem conseguir me livrar dos dedos gelados que esmagavam minha traquéia. Ainda tentei me segurar na beirada do guarda-roupa. Farpas entraram na minha mão e duas ou três unhas se quebraram, sendo arrancadas da minha carne. Nem me importei com a dor, só queria escapar.
Não adiantou.
Quando senti o tecido das roupas deslizando por meu rosto, desmaiei.
Desmaiei ou morri.
Não sei quanto tempo fiquei inconsciente, só lembro que quando abri os olhos, havia apenas escuridão. No instante seguinte, escutei o grito da assombração que me trouxera até ali. Estava me procurando. Fugi para bem longe, até os urros de frustração se tornarem meros sussurros ecoando nas trevas.
Vaguei durante muito tempo sozinho, gritando por socorro. Muitas vezes ouvi outros pedidos de ajuda, na maioria com vozes de crianças. Em outras ocasiões, escutei apenas berros insanos. Nunca encontrei ninguém. A solidão se tornou desesperadora e já estava quase enlouquecendo, quando bati em algo. Parecia a porta de um guarda-roupa.
Empurrei e cheguei aqui, no seu quarto.
Desde então, volto todas as noites. Sei que não pode me escutar, mesmo assim eu converso com você para espantar minha própria solidão. Vejo pelas fotos que está crescendo rápido. Não cometi o erro de ser visto, então logo você não sentirá mais minha presença. Vai concluir que eu não existo, aí será só questão de tempo para que abaixe o cobertor, deixando seu pescoço ou braço desprotegido.
Serei mais inteligente do que a coisa que me raptou.
Quando eu te puxar para dentro do armário, nunca mais vou te soltar.
Ok, não tem nada a ver com contos de terror e fantasia, mas é algo que me emocionou profundamente, portanto, fica a dica: assista Avatar. Em 3D, de preferência no IMAX. É uma viagem, cara. Se não for possível ver em 3D, tudo bem, é um filmaço mesmo em 2D, mas assistir da maneira que o filme foi feito para ser visto é lisérgico, uma egotrip maravilhosa e encantadora.
Agora com licença, que ainda estou tonto com a experiência. Essa noite, vou sonhar como não sonho há muito tempo. Acho que desde meus 12 ou 13 anos...
O escritor e ativista literário Ademir Pascale realizou uma entrevista comigo, onde pude falar um pouco sobre meu início literário, minhas publicações, opiniões e expectativas sobre futuros lançamentos. Quem quiser conferir, basta acessar: www.cranik.com/terrorzine16.pdf
Sílvia permaneceu na porta do quarto por vários minutos, como se contemplasse um local sagrado onde não era digna de entrar. Seus olhos estavam distantes, vazios. Os tranqüilizantes receitados pelo psiquiatra produziam uma neblina espessa, que encobria a incessante vontade de chorar até morrer.
Tirou do bolso a cartinha de Otávio, manuseada tantas vezes que a tinta começava a sumir nas bordas. Sem perceber, caminhou em direção ao leito enquanto lia a última mensagem do filho doente, narrando o desespero de passar a vida inteira deitado, incapaz de se locomover sem ajuda. O mais torturante era aquele trecho final, onde pedia algo que a mãe jamais poderia acatar:
“Por favor, peço que destrua essa cama maldita. Queime, jogue no lixo não importa, apenas livre-se da minha prisão.”
A mulher sentou no colchão com um suspiro baixo, o máximo de emoção que conseguia exprimir. O aposento era mantido como estava desde a morte do filho único, os pôsteres de seu time de futebol ainda nas paredes, os porta-retratos na mesma posição. As fotos mostravam o garoto sorrindo com a família, imagens tiradas nos raros dias de pouca dor.
Dias preciosos.
O quarto era, portanto, um verdadeiro memorial. Pelo que dependia dela, continuaria daquele jeito para sempre, com o mesmo leito no mesmo lugar. Levantou de maneira lenta, arrastando os chinelos de pano que quase nunca tirava. Trancou o quarto para ninguém entrar, como sempre fazia.
Ainda aprisionado à cama, o espírito de Otávio implorou para ser atendido, sussurrando lamentos que a mãe não era capaz de ouvir.
Bem, bem, hora de um pouco de marketing pessoal. Tenho disponíveis alguns exemplares de quatro coletâneas que contém histórias minhas (uma história em cada livro). Vou postar a capa, o preço e um pequeno trecho de cada conto presente na obra apontada. Quem quiser encomendar algum exemplar (com autógrafo, of course!), basta fazer o pedido pelo e-mail spinossauro@yahoo.com.br. A partir disso, a gente combina o depósito, endereço para envio, etc.
Lembrem-se que são antologias com vários autores, incluindo muitos escritores conhecidos na literatura fantástica nacional. Só para exemplificar, aqui vai o nome de alguns dos participantes dessas coletâneas: Miguel Carqueija, Braulio Tavares, Octávio Aragão, Regina Drummond, Waldick Garret, Ademir Pascale, Adriano Siqueira, Duda Falcão, Giulia Moon, M.D. Amado, Angela Oiticica, Luciana Fatima, Claudio Brites, Octavio Cariello, Roger Cruz e mais um moonte de gente talentosa!
Sem mais, um pouco sobre cada livro:
INVASÃO
Preço: R$ 29,00
Conto: LAR
Trecho: "...Voltaram a caminhar entre ruínas e metal retorcido, tentando não tossir com a poeira que impregnava o ar. Às vezes encontravam outras pessoas se esgueirando nas ruas, contudo era mais comum encontrar cadáveres esmagados. Jair nem se preocupava em mandar Alex fechar os olhos, tentar protegê-lo disso seria ridículo nas atuais circunstâncias. Abatido, lembrou do anúncio feito pelos astrônomos, sobre a chegada iminente dos alienígenas alados. Os governantes demonstraram otimismo, afirmando que os seres deviam ter propósitos pacíficos. Quando as gigantescas criaturas chegaram, pareciam dispostas a provar o contrário..."
GALERIA DO SOBRENATURAL
Preço: R$ 26,00
Conto: Um Estranho Incidente Noturno
Trecho: "...Assim que entrou no quarto, Paulo interrompeu os passos. Seus olhos arregalaram tanto que sua expressão poderia ser considerada cômica, não fosse o esgar de horror que acabava com toda a graça. Balançou a cabeça para fazer aquela visão sumir, sem obter qualquer resultado. Havia alguém deitado em sua cama. Estou enlouquecendo... A hipótese da perda de sua sanidade parecia admissível por dois motivos: primeiro, era improvável que uma pessoa invadisse o apartamento só para dormir em seu colchão; segundo, e muito mais crucial, era o fato do intruso ser alguém que jamais poderia estar ali..."
ALTEREGO
Preço: R$ 26,00
Conto: O Salteador Noturno
Trecho: "A garota corria pela rua deserta, sem olhar para trás. Mesmo na escuridão da noite, conseguia desviar dos postes com lâmpadas quebradas e sacos de lixo na calçada. Estava indo bem, até entrar num beco sem saída. Voltou-se desesperada, mas seu perseguidor já bloqueava o caminho. - Gatinha! Psipsiuu! – falou ele, a voz embolada indicando que estava bêbado. Ou drogado. Talvez ambos. A moça gritou por socorro, mesmo sem qualquer esperança de ser atendida. Aquele bairro não era famoso pela boa conduta de seus moradores, e com certeza era um péssimo lugar para bater o carro, como fizera momentos atrás. Antes que tivesse qualquer reação, o marginal agarrou seu cabelo e encostou um canivete em sua barriga. - Fica quietinha gostosa, senão vou... - Creio que a senhorita não está interessada nos seus galanteios, meu caro – disse uma nova voz, que transbordava autoconfiança. Apreensivo, o bandido foi virando devagar para a entrada do beco..."
DRACULEA - O LIVRO SECRETO DOS VAMPIROS
Preço: R$ 25,00
Conto: Tormento
Trecho: "As nuvens noturnas se agitavam sobre as cordilheiras, beijando os cumes com lábios elétricos e destruidores. A água ainda não começara a cair, como se a tempestade estivesse na expectativa, aguardando o momento certo para desempenhar seu papel. Observando tudo do topo de uma das montanhas, a gigantesca figura de cabelos negros ponderou que não era um cenário ruim para morrer. Mas com certeza era melhor para matar."
E estas foram minhas modestas ofertas. Não fique aí parado, falta pouco para dar entrada naquela Mercedes que tanto sonhei! :P
Nascido em Curitiba e formado em Direito e Medicina Veterinária. Atualmente, trabalha como Técnico Judiciário. Já publicou contos nos livros Draculea, Invasão, Alterego, Galeria do Sobrenatural e Zumbis, na revista Scarium Megazine, em fanzines impressos (Astaroth e Juvenatrix antigos), fanzines eletrônicos (Astaroth e Juvenatrix novos, no TerrorZine) e diversos sites (como o Boca do Inferno).