sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Notícia: Kizzy Ysatis e Liz Vamp sofrem agressão.
Eu não estava lá para ver o que aconteceu, mas pela minha experiência pessoal, posso dizer o seguinte: todos os escritores que conheço são pessoas gentis e educadas, avessas à violência na vida real (sangue e tripas, apenas em seus escritos); já os gerentes de boates, caixas e seguranças desses estabelecimentos... Com o devido respeito aos raros profissionais íntegros desse meio, mas só conheço um ou outro que se salva. Na maioria dos casos, costumam ser todos uns boçais. Portanto, perdoem-me por tomar partido, mas tenho certeza absoluta que o Kizzy e a Liz Vamp foram agredidos injustamente sim.
Vamos torcer para que os dois se recuperem logo e que a justiça seja feita em seguida.
Links relacionados:
Folha
Terra
Uol
Globo
sábado, 29 de agosto de 2009
Prévia do meu conto do livro Draculea!
"As nuvens noturnas se agitavam sobre as cordilheiras, beijando os cumes com lábios elétricos e destruidores. A água ainda não começara a cair, como se a tempestade estivesse na expectativa, aguardando o momento certo para desempenhar seu papel. Observando tudo do topo de uma das montanhas, a gigantesca figura de cabelos negros ponderou que não era um cenário ruim para morrer.
Mas com certeza era melhor para matar."
E por enquanto é isso. Sim, só isso! Rsrsrs. Abraços e até mais!
Outra história minha no site Contos Fantásticos!!!
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Lançamento do Dracúlea neste sábado!

Olá! Vim apenas refazer o convite para o lançamento de Dracúlea - O Livro Secreto dos Vampiros! Os detalhes estão na imagem acima. Como já disse, não poderei ir, mas estarei lá em espírito. Portanto, se você estiver presente no Bardo Batata e sentir uma mão gelada em seu ombro, mas quando virar não tiver ninguém lá, não se assuste. Sou eu dando um alô.
Abraços!
sábado, 1 de agosto de 2009
Divulgação: Contos meus em três coletâneas literárias!
INVASÃO (Giz Editorial)


O nome diz tudo: a coletânea Invasão trás histórias sobre nosso planetinha sendo invadido por forças estranhas e, na maioria das vezes, hostis. Alienígenas, monstros marinhos, criaturas do centro da Terra, o organizador Ademir Pascale nos deu total liberdade para decidir como seria essa invasão. Contando com vários autores de renome e alguns iniciantes de talento, essa antologia certamente vai agradar os amantes do Terror e da Ficção Científica. Estou participando da obra com o conto Lar. O lançamento está marcado para setembro, e a obra poderá ser encomendada por aqui mesmo (com direito à dedicatória, para quem desejar). Mais detalhes quando a impressão estiver pronta!
ALTEREGO (Terracota Editora)
Do que se trata a coletânea Alterego (organizada por Octavio Cariello), você deve estar se perguntando? Bem, nada melhor do que a sinopse oficial para tirar essa dúvida:
"Heróis, superHeróis e todas as suas identidades secretas. A figura do golem evocado para salvar, proteger, vigiar. As máscaras que usamos todos os dias para tornar a vida possível. Realismo, fantasia, ação! Os contos desta seleta emprestam das HQs seu assunto preferido, reforçando na literatura a força do verbo e das onomatopéias, claro. Organizada por um dos grandes artistas da nona arte nacional, AlterEgo vem buscar novos mitos para compor o panteão e os infernos onde o homem é deus e vice-versa."
Estou participando deste livro com o conto O Salteador Noturno. O lançamento vai ser dia 22 de setembro na Livraria Martins Fontes, à Avenida Paulista, às 18:30 (vou fazer o dobro de esforço pra comparecer nesse, já que vou perder o lançamento do Draculea...). Este livro não poderá ser comprado comigo, mas assim que eu tiver mais informações, coloco os links para vocês.
DRACULEA - O LIVRO SECRETO DOS VAMPIROS (All Print Editora)

Deste eu já tinha falado, mas não custa relembrar. A Coletânea Draculea (também organizada por Ademir Pascale) mostra contos sobre os segredos dos vampiros, fatos, acontecimentos e detalhes que estas fascinantes criaturas noturnas preferem manter apenas para si. Este foi o único que tive oportunidade de ler os demais contos, e garanto: a seleção está ótima! Minha história prsente na obra chama-se Tormento.O lançamento do livro será dia 22 de agosto, a partir das 18:00, no Bardo Batata (mais detalhes no convite acima). O livro também poderá ser adquirido comigo, também com direito a autógrafo e tudo mais, rsrs. No lançamento deste não vou poder comparecer, mas se tudo der certo, estarei nos lançamentos do Invasão e do Alterego.
E por enquanto é isso, meus amigos. Abraços, até mais!
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Miniconto: Slasher Story
Apesar dos boatos sobre um assassino à solta, Kevin resolveu averiguar o ruído lá fora. Queria impressionar a doce Jennifer, que vigiava seus movimentos da porta, apreensiva. Devia ser apenas um gato. Bastava circular um pouco, voltar como um herói e receber a deliciosa recompensa...
Um homem deformado surgiu detrás dos arbustos, segurando um facão. O rapaz escutou o grito da namorada antes de ter o crânio partido ao meio.
A garota correu para dentro da casa, subindo escadaria acima ao invés de fugir pela porta da frente. Típico. Quando estava chegando à escada, o homicida viu uma máscara africana enfeitando a parede. Sua mão rude apanhou o objeto ritualístico, colocando-o sobre o rosto. Caminhou até o banheiro e fitou o espelho, movendo a cabeça para os lados, indeciso.
- Nããã – falou após alguns segundos, jogando o objeto no lixo. Não queria apelar para algo clichê, como uma máscara de hóquei ou algo do tipo, mas estava difícil encontrar algo que caísse bem.
Ouviu um barulho lá em cima, como se a garota tivesse entalado na janela por onde tentava escapar. Era a terceira vítima que fazia aquilo. O homenzarrão suspirou e subiu os degraus, sem muita empolgação.
Definitivamente, aquele hobbie estava perdendo a graça.
domingo, 19 de julho de 2009
Terrozine 11 e entrevista do Ademir Pascale
http://www.cranik.com/terrorzine11.pdf
Obs. Ah, aproveitem para ler a entrevista do Ademir no site Biblioteca dos Vampiros (e não é pra me gabar, mas reparem um dos nomes que ele cita como uma das grandes promessas na literatura de horror, he he he). Segue o link:
Entrevista do Ademir Pascale
Abraços!
quarta-feira, 15 de julho de 2009
O Lençol no site Contos Fantásticos!
Contos Fantásticos
Abraços!
Convites!!!
Primeiro, o convite para prestigiar o lançamento do Draculea - O Livro Secreto dos Vampiros. Organizado por Ademir Pascale, o livro reúne 27 autores, incluindo este que vos fala. Infelizmente, não poderei estar lá. Mas quem tiver a chance, não perca, vai ser muito legal! Já tive a chance de ler o livro, e garanto, há histórias fantásticas nele! Detalhes do evento na imagem abaixo:

E também, um convite para o lançamento do Território V - Vampiros em Guerra, organizado por Kizzy Ysatis! O livro será lançado no Dia dos Vampiros (13 de agosto), e tenho certeza que a seleção está impecável! Detalhes na imagem abaixo:
E por enquanto é só! Abraços!
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Contos vencedores do Concurso Escritores de Terror!
Primeiro lugar:
NASCIDO NO DIA DO SENHOR, de Wilson Lourenço
Bem, vou contar pra vocês algo que um amigo de um amigo meu me contou. O que rolou com o meu camaradinha, o Domênico.
Veja só você, Domênico é o tipo de cara que inspira confiança. Um negão alto e magrelo, de uns trinta anos e com sorriso aberto, cheio de dentes brancos na cara preta. Sempre com uma palavra amiga, sempre com um conselho bem-vindo, sempre calmo. Domênico é tão gente boa, é tão sangue-bom, que ninguém, ninguém jamais acreditaria se eu contasse que ele saiu no pinote do morro. Com toda a féria da semana, junto com sua filha pequena, a Mariana. Levando algo como, no mínimo, uns quinze mil reais. Pelo que soube, pra bancar alguma operação urgente da pequena.
Nos tempos em que o dono da boca-de-fumo era o Manuelzão, talvez houvesse até perdão. Uma sova de arriar os quartos, a expulsão dele e da família do morro e pronto. Afinal, era o Domênico! Quinze anos de serviços sem falta. Trabalhou de “vapor”, “fogueteiro”, “olheiro” e o escambau. Alguém que tinha passado a cuidar da contabilidade do tráfico tão direitinho que nunca deram falta de um centavo sequer.
Mas, desde que Manuelzão foi grampeado e o Luizinho Tinhoso tomou seu lugar, ninguém no seu juízo perfeito faria o que Domênico fez. Eu me lembro muito bem de quando era o Tico que cuidava do caixa da boca e ele deu sumiço numa mixaria, uns quinhentos paus, para pagar uma dívida e repor depois. Dívida de jogo, eu acho. Quando Luizinho descobriu a diferença, juntou seus capangas mais violentos e arrastaram o Tico lá pro “microondas”, no alto do morro. E, pelo que me contaram, foi uma covardia.
Primeiro porque, pra humilhar o Tico, arriaram as calças do coitado e uns dois capangas enrabaram o pobre à força. Logo Tico, que se gabava de ser muito homem, de ser comedor. Depois, Tinhoso meteu a faca no bucho dele e deixou o sujeito berrando com as tripas de fora. Terminaram o serviço largando ele pendurado de cabeça pra baixo no lixão. Tipo, pros ratos o comerem vivo durante a noite. Todo mundo escutou ele gritando e ninguém teve coragem de fazer nada. No dia seguinte tava o corpo lá, todo comido, cheio de urubus ao redor. Até dentro da barriga tinha rato.
Domênico fugiu então com a filha pra casa da bisavó dele. Uma velha bem velha de uns noventa e lá vai fumaça, quilombola lá de Brejo dos Crioulos. Ele achava que estaria seguro lá porque o morro onde a bisavó dele mora é controlado por uma milícia. Ele pensava que Tinhoso não teria coragem de ir atrás dele lá.
Uns três dias depois que estava escondido com a menina na casa da velha, a “bisa” jogou os búzios pra Domênico. E ela olhou ele bem no grão do olho, com aqueles olhos pequenos e cheios de cataratas, porque não tinha visto nada de bom. Ele pediu então um trabalho bem pesado pros orixás. A velha era poderosa, sabia coisa do tempo dos escravos. Estas coisas que se passam de mãe pra filha, de avó pra neta. Mas a velha falou: “Num dá tempo Domê, os orixás atendem quando querem. Num é assim!” Foi então que ele pediu pra ela algo mais. Alguma coisa que deixou a velha apavorada. Um troço que ela jamais faria pra qualquer pessoa. Mas, ele não era qualquer pessoa!
No mesmo dia, de noitinha, Domênico tava fumando seu cigarrinho e bebendo sua cervejinha sossegado perto da birosca do Pimpão na subida da favela, quando um monte de carros e motos cercaram o lugar. Ele não reagiu porque não era bobo nem nada. Levou uns tapas e enfiaram ele no carro e levaram pro morro onde Tinhoso era o chefe da boca. Subiram com ele pro “microondas” e começaram a dar porrada na cara. Só socão. Quando ele tava todo ensanguentado, perguntaram: “Quem é que manda no morro? Quem é que manda nesta porra?”.
Ele falou algo baixinho que ninguém escutou. Perguntaram de novo e ele disse de novo algo muito baixo. O Fernando Malandrinho, que era um dos negões mais parrudos e braço direito do Luiz Tinhoso, chegou o ouvido bem perto da boca do Domênico e perguntou de novo.
O que eu vou contar foi coisa que um menino que tava no alto de uma árvore viu. A história passou de boca em boca e pode ser que eu esteja exagerando. Mas eu boto fé que foi assim mesmo que aconteceu.
Pois, quando o Malandrinho chegou o ouvido junto da boca do Domênico, ele não respondeu. Ao invés de responder ele mordeu a orelha. Mas mordeu tão bem mordido, feito um bicho, sei lá. Mordeu e girou o pescoço feito um leão. Arrancou a orelha com os dentes e puxou a metade da pele do rosto toda junto. Praticamente arrancou o rosto do desgraçado.
Com a boca cheia de carne e sangue, Domênico começou a rir. Todos ficaram apavorados, porque aquela não era a boca dele. Aquilo não era boca de gente. Era quase um rasgão que ia de orelha à orelha e tinha tanto dente que não parecia possível caber numa boca só.
E ele, que até então, estava ajoelhado levando porrada, arrancou a camisa e se levantou. Não era mais o Domênico, o negão simpático, que tava lá. Era coisa muito maior, muito pior.
O pessoal não pensou duas vezes. Eles sacaram os berros e saíram pipocando pra cima dele com tudo. Mas ele só ria, porque as balas derretiam e escorriam pelo corpo. Nem arranhavam o filho-da-puta. O bando se apavorou e tentou fugir. Mas, do nada, surgiu uma parede de fogo fazendo um círculo bem no meio do “microondas”.
Ficaram lá se olhando apavorados sem saber o que fazer. O bicho que foi o Domênico, jogou a cabeça para atrás, levou as mãos cheias de sangue e as esfregou no rosto todo feliz. Como se estivesse gozando ou se preparando pra gozar depois. Da cabeça, montes de cobras surgiram e a criatura gargalhava que nem louca. Sabe, não se movia feito gente. Ele meio que dançava, cada movimento seu não era natural.
De repente, parou de rir e começou a falar muito sério com uma voz tão arranhada quanto giz numa lousa : “Há favores que, de tão prazeirosos, nem precisariam ser cobrados. Há aspectos de mim mesmo que não deveriam ser despertos. Eu não sou o Exu-Elegbara brincalhão do povo negro. Porém sim, o que outros povos também antigos chamavam de Belial. Quanto a vocês, podem me chamar do que quiserem, pois não fará diferença alguma.”
Dito isto, ele rasgou as calças do Domênico que ele ainda vestia e exibiu, com orgulho, o pau ereto, gigante e espinhoso. Os gritos foram escutados no morro todo a noite inteira. A criatura só ria e gozava com todo o tipo de atrocidade. Depois de violentar Tinhoso por umas tantas vezes, parece que o beijou, enfiando a língua comprida garganta abaixo e revirando e puxando suas tripas pela boca depois. Virou o infeliz pelo avesso.
Quando amanheceu, no dia seguinte, só havia restos queimados e rasgados por todos os lados e o chão estava pegajoso de tanta porra e sangue espalhados.
O mais incrível foi o que me contaram depois. Que, o tempo todo, Domênico esteve na casa da sua bisavó, xingando baixo pra filha não escutar palavrão, enquanto tentava segurar o controle remoto da TV com as mãos enfaixadas, agora, sem os polegares dados em oferenda.
É o que eu sempre digo. O cara não é marrento, o sujeito é gente fina, é malandro das antigas. Levaria tiro por um amigo numa dura dos meganhas e tal. Mas, não fode com ele não. Não fode, porque ele pode te foder direitinho em troca!
Segundo lugar:
O GUARDA-CHUVA, de Luiz F. Riesemberg
Sem que ele desconfiasse, começamos a chamá-lo de “reloginho suíço”. Não só pela pontualidade quase doentia que mantinha em todos seus compromissos, mas também pelo metodismo exagerado que demonstrava nas mais simples atividades.
Ele vivia com a roupa muito bem passada e engomada, e os sapatos impecavelmente engraxados. Ia ao barbeiro aparar o cabelo e as costeletas sempre nas primeiras sextas-feiras de cada mês. E o simples ato de caminhar na rua era carregado de uma pomposidade imensa, como se cada movimento fosse devidamente premeditado.
Ele devia ser feliz assim, mas o achávamos antiquado demais, um chato. O pior era ouvir seus discursos intermináveis, quando ele achava estar agradando a todos com sua insuportável verborragia.
Às vezes imaginávamos como seria na intimidade do lar, com a esposa. Devia tratá-la por “senhora”, e teria chiliques se descobrisse um amontoadinho de pó sobre a prataria na sala de estar. Essas suposições sempre nos causaram muitos risos.
Todos tolerávamos seu jeito, mas daquela vez estávamos dispostos a colocar em prática um plano antigo, criado provavelmente em um momento de exageros alcoólicos, e aperfeiçoado a cada nova conversação sobre o tema: queríamos lhe pregar uma peça, para — pelo menos um dia na vida — vir abaixo toda aquela perfeição desesperada com que fazia cada gesto.
Depois de muito divagar em segredo, o convidamos para um jantar na residência de um dos convivas, com o falso intuito de servir de despedida de estimado colega, que faria uma longa viagem.
Marcamos para as vinte horas, como sempre, mas toda a turma já estava reunida muito antes, preparando as surpresas daquela noite.
Às vinte horas em ponto, tocava a campainha do local da reunião.
O sujeito foi recebido pelo mordomo, que recolheu sua capa, o chapéu e o guarda-chuva, depositando-o ao lado da porta. Esta era outra de suas características mais irritantes: a simples presença de uma nuvem no céu fazia com que ele carregasse, onde fosse, aquele enorme guarda-chuva pontudo debaixo do braço. Era um guarda chuva preto, mau humorado, que parecia estar sempre trazendo más notícias.
Imagine qual foi a surpresa do nobre homem ao reparar o grande relógio na parede da sala, marcando vinte horas e trinta minutos.
Ele deu uma olhada em seu relógio de pulso. Vinte horas e um minuto.
Foi conduzido, confuso, até a sala de jantar, onde observou uma mesa farta, com toda a turma reunida à sua volta, animada, já apreciando o prato principal.
— Olha só quem apareceu atrasado! Achamos que nem vinha mais! — bradou um dos companheiros mais exaltados, dando a entender que o vinho já havia sido aberto há um bom tempo.
— Parece que vai chover mesmo! Nunca o vimos se atrasar assim! — disse um outro.
Envergonhadíssimo, o convidado pediu as mais sinceras desculpas.
— É a primeira vez que isso me acontece. Preciso levar meu relógio ao conserto. Vejam só: marca dois minutos após as vinte!
Vários dos homens à mesa olharam para seus próprios pulsos.
— Vinte e trinta e dois no meu.
— No meu já são trinta e quatro.
— Ah, deixa para lá! O importante é que você veio se despedir de mim! Venha, puxe uma cadeira e sente conosco!
Ainda de certo modo contrariado, o convidado comentou:
— Eu posso jurar que o relógio estava funcionando muito bem ainda hoje. Não fossem as nuvens no céu, eu diria a hora exata só pela posição das estrelas, e chegaria no horário marcado.
Alguns riram do exagero, mas mais da metade ficou em silêncio, sabendo que o comentário não era tão absurdo assim, partindo da boca de onde veio. Com tempo bom, a brincadeira estaria acabada.
Os amigos sabiam que ele gostava de sentar-se sempre com muito espaço livre de ambos os lados, para não lhe prejudicar os movimentos ao servir-se. Foi por isso que deixaram a única cadeira vaga entre os dois homens mais encorpados do grupo.
A vítima da peça ficou espremida, mas esforçou-se para sorrir assim mesmo, mantendo a classe.
— Eu é que peço desculpas agora — disse o anfitrião. — Como achávamos que você não vinha mais, mandei retirar os talheres.
Deu a ordem ao criado.
O mordomo trouxe o necessário à mesa, mas havia uma grande impressão digital na taça, e os talheres foram depositados displicentemente, um tanto tortos, de propósito para irritar o metódico convidado.
Toda a turma permaneceu em silêncio, observando o homem servir-se, cada vez mais tímido. Aos poucos cresciam pequenas gotas de suor em suas têmporas, e um leve rubor surgia em toda a face.
Os arquitetos do plano já riam por dentro, e começavam a dar-se por satisfeitos, vendo que tudo estava indo às mil maravilhas. Mas ainda haviam preparado mais para o colega.
Depois do jantar, quando foi dado um tempo nas brincadeiras, para não constranger demais o pobre homem, os cavalheiros levantaram-se e dirigiram-se à sala.
O dono da casa trouxe uma fina caixa de madeira e abriu a tampa, mostrando uma série de charutos cubanos. — Vamos experimentar essas maravilhas! — disse.
Cada convidado foi retirando uma peça da caixa, e já acendendo. Ao amigo esquemático só restou o último charuto, aceito com a insistência dos outros, que queriam vê-lo descer, ainda mais, de seu pedestal de elegância e pedantismo.
Conversavam, entre muitas baforadas, sempre procurando deixar o “reloginho suíço” no centro das atenções. Ele divagava a respeito de questões políticas da sociedade quando, ao interromper a fala e colocar mais uma vez o charuto na boca, um estalo o fez arregalar os olhos de espanto e ruborizar totalmente. A ponta do charuto que fumava havia explodido, e desta vez os comparsas não detiveram o riso, entregando-se.
A vítima das brincadeiras ainda estava transtornada pelo susto, sem querer acreditar que adultos daquela classe seriam capazes de tamanha infantilidade. Começou a tossir, engasgado pela fumaça que engoliu sem querer durante o estouro.
Um dos homens pediu ao mordomo que trouxesse uma taça de vinho ao homem.
— Desculpas, meu companheiro — disse o anfitrião. —Eu tinha esse charuto explosivo guardado há meses, e não pude evitar! — e ria. — Eu não podia imaginar que logo você era quem ia ficar com ele. Todos aqui eram vítimas em potencial!
Eles estavam rindo, e o criado trouxe o vinho.
O respeitoso homem, visivelmente irritado com a perturbação que sofria naquela noite, levou a taça à boca. Já nem foi tanta surpresa sua quando notou que o vinho escorria pelo queixo e seguia pelo peito, manchando-lhe a camisa.
Outra explosão de risos.
Haviam lhe pregado mais uma peça, desta vez com uma daquelas velhas taças furadas.
Isso foi o ápice para que perdesse a paciência. E esse era o objetivo dos colegas.
— Eu não posso acreditar que os senhores tenham perdido tempo com essas imbecilidades — dizia, ainda menos contido que antes.
Levaram-lhe uma toalha para que se enxugasse, mas ele a recusou. Em vez disso continuou, áspero:
— Não acredito que perdi meu precioso tempo vindo até aqui, para ser joguete de vocês, seus sátiros!
O riso dos colegas já era menos de diversão, e mais para dissimular o mal estar. De qualquer forma era curioso vê-lo irritado, disparando aquelas frases. Esta poderia ser a única vez que presenciavam tal cena. E de fato foi mesmo.
Sem querer ouvir os risos, as desculpas e o “deixa-disso”, o cavalheiro dirigiu-se direto à porta, atravessando a barreira formada pelos irritantes amigos, sem sequer olhá-los no rosto. Antes de sair, o mordomo lhe entregou um chapéu e um casaco que não eram seus — o toque final planejado pelos companheiros. De tão aborrecida que estava, a vítima nem percebeu e os vestiu assim mesmo. Mas não esqueceu de puxar o famoso guarda chuva que estava encostado na parede, e saiu com ele debaixo do braço.
Os que ficaram riam de mais esta última situação, e fizeram um brinde ao sucesso do plano.
Na manhã seguinte, o anfitrião do jantar — e principal mentor do plano — recebeu um telefonema.
Não conseguiu acreditar na notícia que estava recebendo, e a princípio achou tratar-se de uma vingança do “reloginho suíço”, depois das barbaridades que havia sofrido em suas mãos.
— É verdade mesmo. Ele morreu — afirmou um dos convivas.
Tinha certeza de que, assim que chegasse à casa do amigo, para o velório, descobriria toda uma farsa armada. Estaria o metódico velho finalmente demonstrando senso de humor?
— Eu não vou conseguir dormir em paz, depois do que fizemos, se isso for verdade — dizia a maioria dos cavalheiros que estavam no jantar da noite anterior.
À hora marcada para o velório, o grupo de colegas que pregou a peça estava na casa do amigo. Caixão, coroas de flores, uma viúva chorando e pessoas de preto. Parecia mesmo um velório real. Ainda mais com aquele defunto estirado rígido, trajando luxuoso terno, com os dedos entrelaçados sobre o peito e algodões nas narinas.
Era mesmo ele. Mas estávamos esperando que, a qualquer minuto, se levantasse daquele caixão, tentando pregar um enorme susto. Ficamos olhando atentamente, por muito tempo, para seu rosto imóvel.
Só isso. Nenhuma peça pregada.
Ou talvez tenha sido aquela a grande peça que ele armou para vingar-se, morrendo de verdade.
Os colegas ficaram um bom tempo sem conversar depois do acontecido, até que finalmente marcaram outro jantar, meses depois, no horário de sempre.
Era uma noite nublada e nevoenta.
Um tanto incomodados, os colegas tocaram pouco no assunto.
Às vinte horas e trinta minutos, no meio do jantar, a campainha tocou.
— Não havia ninguém na porta, senhor — informou o criado.
— Devia ser alguma criança brincando. Ou então, os senhores sabem, o vento...
Na hora da despedida, um dos presentes observou algo no chão, ao lado da porta, e perguntou, assustado:
— De quem é este guarda-chuva?
Terceiro lugar:
FOBIA DICTIÓPTERA, de Johnatan Ferreira
Elas estavam ali, ele sabia. Escondidas nos cantos, observando-o, julgando-o e planejando a melhor maneira de atacá-lo. Seus corpos achatados subindo nas paredes ou reunidas em buracos escuros e nauseantes vivendo em colônias e cidades. Até podia ouvi-las! Falando mal dele, murmurando coisas como demônios saídos do inferno ocupando pequenos e nojentos corpos.
Uma lembrança remota martelava-lhe a cabeça. O seu primeiro contato com elas, quando os seus dedos roçaram inconscientemente aquele tórax amarronzado, com asas cobrindo o abdômen segmentado. Ele, num movimento reflexo se agitando e a antena do ser encostando em sua palma e as patas... Oh!As patas! Gritou na hora, correndo para o banheiro, lavando suas mãos que encostaram no inseto viscoso. Sabão, desinfetante, detergente, água sanitária, álcool... o nojo se avolumava e a vontade de raspar a pele da mão com uma faca não lhe parecia na hora tão insana.Demorou para sentir-se completamente limpo.
A partir daquele dia a repugnância por baratas o inundou e uma alegórica fobia alojou-se em seu cérebro. Em seu apartamento, inseticidas banhavam os cômodos e superfícies tocáveis. E nenhuma barata jamais o importunou.
Mas agora ele não estava em seu apartamento. E errônea e estupidamente esquecera qualquer inseticida.
E o pavor o dominava.
A escuridão se instalava no quarto, densa e pesada, no momento em que se dava conta em que enrascada se metera.
Ele rapidamente pegou uma vela que estava na gaveta da cômoda. Depois pegou um fósforo no bolso de trás da calça jeans que se encontrava na quina da cama, ali guardada para acender seus habituais cigarros. Não se atrevia a afastar os olhos da abundante escuridão que pairava sobre si, temendo que se assim o fizesse algo caísse sobre ele e...
O estalar e silvar do fósforo quebrou o feitiço perverso, e um pequeno brilho de luz trêmulo afastou a escuridão, levou-o até a vela, acendendo-a e logo depois o candelabro encima da cômoda.
Ele estava na cama, sozinho e desprotegido, enquanto as baratas mancomunavam contra ele. Tramando coisas a qual não podia defender. Pensou em acender a luz, mas Elas estavam no chão e se pisasse em uma...
Tremeu.
Tentou dormir, querendo afastar aquilo; sua mente racional tentando derrotar freneticamente o seu crescente terror, lutando para a controlar a situação.
(Não tem nada!)
Um ruído perto do ouvido.
Virou o rosto não avistando nada.
Começou a rezar, vendo, porém ser perceber seu desespero se alastrando rapidamente como morcegos em uma casa e suas orações se transformando em um misto de palavras sem nexo.
Começou a ouvir o zumbido de uma vespa que batia descontrolada de encontro ao teto, quando sentiu algo roçar em seu cabelo. Tremeu por inteiro e numa ação reflexa levou a mão até lá, tentando afastar qualquer corpo estranho que queria se alojar ali.
Nada novamente.
O coração batia descompassadamente. O peito subia e descia numa respiração entrecortada e assustada. Sentiu outro roçar. Agora no braço. O agitou num movimento descontrolado.
Elas estavam ali, sem duvidas.
Ouviu algo se chocando, como o quebrar de um graveto. Mas aquele ruído não era nenhum barulho normal da noite, não era o som da madeira a estalar, nem dos canos a ressoar. Tinha a certeza que era o esqueleto externo rígido das baratas batendo um contra o outro.
Um frio na barriga. Os olhos agitados. Engoliu saliva e seu pomo de adão subiu e desceu conforme o liquido que escorria goela adentro.
O zumbir da vespa é como um prelúdio.
Ele suava, não de calor, mas de medo. Puxou a coberta para junto de si numa tentativa tola e infantil de se proteger. Ele se encolheu como uma criança com medo do bicho papão.
O silêncio se instalou. A pausa para o acontecimento clímax.
Até que deu um grito, sentindo um roçar em seus dedos dos pés. Os balançou tentando tirar os seres repugnantes que subiam por ali. Eram baratas! E elas subiam por seus pés, avançando ainda mais pelas pernas, joelhos, coxas... com patas asquerosas e nojentas.Elas estavam ali! E suas sombras se alastravam pela parede. O abrir de asas como anjos. Anjos do inferno.
Fechou os olhos e não queria ver aquelas antenas móveis, longas e filiformes que serviam para identificar os alimentos antes de devorá-los com suas mandíbulas horizontais. Os pêlos nas suas 6 pernas, longas e finas; o corpo achatado permitindo entrar em lugares estreitos; a cabeça cuneiforme, algumas possuíam asas. E os olhos... podia jurar que os olhos eram vermelhos incandescentes. Vermelho sangue.
Aqueles insetos nauseabundos avançavam por seu corpo. E ele se virava e se mexia descontroladamente, tentando impedir que eles subissem ainda mais. Era enlouquecedor ter sua epiderme tocada por aquilo.
(Oh Deus!)
Gritava mais alto, pedindo socorro. Com as mãos batia nas baratas, esmagando-as e fazendo com que seus esqueletos externos se quebrassem e uma gosma verde e branca saísse. E essa gosma tocava sua pele, gelada e nauseante. Vomitou, expelindo uma bílis amarelada que escorria por sua boca e empapava a cama. Sua cabeça, as vezes, encostava no vomito tendo sua face inteiramente molhada pelo liquido desagradável.
As baratas vinham debaixo de sua roupa, eram dezenas, centenas, milhares... Algumas tentavam entrar em seu anus, avançando pelo reto. Outras ainda forçavam a se introduzir no buraco do seu pênis, entrando pela sua uretra.
E o pavor deu lugar a dor.
Ele olhou para baixo não avistando nada abaixo da cintura, era como se tudo tivesse desaparecido, mas não, eram as baratas que o cobria semelhante a um cobertor marrom-escuro que avançava cada vez mais, sendo iluminadas pela luz amarelada da vela acesa.
E tudo isso era acompanhado pelos barulhos repugnantes que aqueles insetos faziam, os exoesqueletos se chocando, as garras arranhando, as asas farfalhando.
O horror. O sofrimento. A dor. A vertigem. O desespero. Tudo se misturava dentro do âmago de seu ser, se mesclando e corroendo sua sanidade. Correndo ele próprio.
As baratas alcançaram sua barriga, o seu peito, os seus braços, os seus ombros, a sua face... e elas subiam pelo queixo e entravam pelas criaturas nojentas.
Ele tentava cuspi-las, sua língua passando nos corpos asquerosos delas.
Então ele começou a morde-las, fechando a boca e mastigando-as. A gosma verde e branca era acompanhada pelas patas e cabeças das baratas
E ele vomitou de novo perante tamanho asco, o vômito grudando na garganta, impedido de sair por causa dos insetos que ali se alojaram. Ele estava se asfixiando e numa tentativa desesperadora de sobreviver, engoliu tudo. Num trago só. As baratas mortas e o vômito. Depois fechou a boca novamente, não se importando com o gosto pavoroso. Mas, mais baratas tentavam entrar ali, e ele conseguia impedir e chorava e não conseguia.
E elas entraram.
E invadiram toda a boca e avançavam indo goela adentro, pela garganta, pela faringe... e elas também tentavam entrar pelo nariz, tapando as narinas completamente.
Ele não conseguia mais respirar.
Agora, as baratas tapavam-lhe os olhos molhados pelas lagrimas e iam cobrindo inteiramente sua face, toda a cabeça. A dor... e então ele soube mais do que nunca que certamente iria morrer.
As baratas cobriam completamente sua pele, pisando nele com suas pequenas garras e patas. Elas e ele, ali, formando um só. Uma massa informe, amarronzada e abominável.
Ele deixou-se ficar assim, pois nada podia fazer ou podia protegê-lo, nem o cobertor, nem a luz, nem a vespa, nem nada.
E quando a chama da vela se apagou, afundando em sua própria cera, as baratas ainda estavam ali, dando seu ultimo abrir de asas angelicamente diabólico; as baratas e o frio da morte.
O terror é como uma bomba, se não explode, não serve para nada.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Conto meu no livro Draculea - O Livro Secreto dos Vampiros

Pretendia esperar mais tempo antes de anunciar isso, mas já que a propaganda é a alma do negócio, é melhor começar a divulgação já! Tenho a honra de anunciar que um conto meu faz parte da coletânea Draculea - O Livro Secreto dos Vampiros. São histórias que abordam os segredos e mistérios desses fascinantes personagens, com contos que procuram ao máximo fugir dos clichês e convenções do gênero. Já li a obra e garanto, o nível está excelente! O livro sai em Agosto, e quem se interessar, vou estar vendendo aqui pelo Lua Mortal (e pra quem quiser, mando autografado! Rsrs).
A foto que ilustra essa notícia é um Wallpaper feito pelo Adriano Siqueira, escritor e especialista em vampiros, com texto do escritor Danny Marks (é uma história com os títulos de todos os contos do livro!). Caso tenham curiosidade, o meu conto se chama Tormento.
E por enquanto é só! Abraços, mais notícias em breve!






