segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

CONTO: O CONFESSIONÁRIO

O Confessionário

Sinto muito, padre, mas não posso aceitar o que você está me oferecendo.
Estou ciente das suas preocupações, meu amigo. Sim, vou explicar o porquê da minha recusa. Faço isso apenas para deixar sua consciência tranqüila, não quero que fique pensando que poderia ter feito mais por mim.
Eu também já fui padre, sabia? Pela expressão em seu rosto, vejo que não é fácil acreditar nisso. Sei que não falo como um clérigo, e não é de se estranhar. Afinal, larguei a batina já faz cinqüenta e três anos, tempo bastante para perder todos os maneirismos do ofício. Mas estou me adiantando, é justamente sobre minha última noite no sacerdócio que vou contar.
Tinha trinta e quatro anos na época, e era responsável pela igreja de Rosa Cruz fazia oito meses. Com apenas quatro mil habitantes, aquela era a típica cidadezinha do interior. Calma e sossegada, da forma que as pessoas da cidade grande ainda idealizam, sem saber que esse tipo de lugar já não existe mais. Meu rebanho era fiel, e a falta de distrações mantinha todos no caminho do Senhor. Para mim, isso era um problema. Afinal, eu havia cometido um grave erro em meu passado e, ansioso para compensar meus pecados de alguma forma, me sentia aflito por não estar fazendo muita diferença por ali.
E então, na madrugada de 19 de novembro de 1953, algo me acordou. Uma voz saída do nada, que sussurrou no meu ouvido: “Acorde José, e vá até a igreja. Você tem uma missão”. Sabe, nunca fui dado a esse tipo de impressão, não tinha pretensões de ser chamado por Deus algum dia, para realizar uma de suas santificadas incumbências. Contudo, não podemos faltar com o Espírito Santo quando somos convocados e, na dúvida, não tive dúvidas: peguei a batina no armário e me preparei para sair. Talvez aquela fosse minha oportunidade de redenção, pela qual tanto havia orado.
Assim que cheguei na igrejinha, abri as portas da frente e as deixei escancaradas. Acendi todas as velas do recinto para conseguir alguma iluminação, depois fiquei sem saber o que fazer. Afinal, a voz não havia sido muito específica sobre meu próximo passo. Imóvel, observei as sombras bruxuleando entre bancos de madeira, crucifixos e santos com expressão sombria. Pedi orientação ao Senhor e, após alguns instantes, algo dentro da nave chamou minha atenção, como se estivesse destacado do resto do lugar.
O confessionário.
Sei que atualmente eles já não são mais utilizados, vocês vigários preferem levar os fiéis até alguma sala para conversarem, de uma forma mais informal. Mas naquela época as pessoas ficavam mais envergonhadas por seus pecados, e encarar o padre de frente seria algo impensável. Aquele era do tipo mais comum, dividido em dois cubículos. Instalei-me no meu lugar e esperei, na certeza de que algo iria acontecer.
No entanto, a longa passagem dos minutos foi abalando minha confiança. Comecei a questionar se tudo não passara de um sonho, e a voz que pensei ter ouvido, mero fruto de uma mente que tanto ansiava por absolvição. A noite estava bastante quente, então você pode imaginar como estava abafado ali dentro. Além disso, a escuridão quase total abria espaço para sensações inquietantes.
Desolado, já estava quase indo embora quando ouvi os passos vindos da rua.
Sem hesitar, o visitante veio direto até o confessionário, abriu a porta do outro cubículo e ali se instalou. Homem ou mulher, eu ainda não podia saber. Se durante o dia já era difícil definir os contornos da outra pessoa pela tela, na madrugada era possível ver apenas um vulto escuro.
- Me perdoe, padre, pois eu pequei – disse uma voz feminina, esclarecendo o mistério. – E faz muito tempo que não me confesso, tanto que não me recordo da última vez.
- Tudo bem, minha filha – falei com gentileza, sentindo-me tocado pela angústia em sua voz, encoberta por uma calma forçada que parecia prestes a desabar. – Não tenha medo, me diga o que te aflige.
Seguiram-se alguns segundos de silêncio, tão completo que eu poderia pensar que não havia ninguém ali comigo. A presença de duas pessoas naquele espaço fechado fazia a temperatura subir ainda mais, então era difícil ser paciente. Estava quase repetindo meu pedido quando ela começou:
- É... É muito complicado. Eu me apaixonei por uma pessoa, alguém que jamais poderia corresponder meu amor.
- Entendo, criança. Um homem comprometido?
- Sim, de certa forma. Mas mesmo sem poder compartilhar dos meus sentimentos, ele consentiu em aceitar meu corpo. Fiquei cega pela paixão, achei que conseguiria convencê-lo a ficar comigo! Como fui burra! Ele se arrependeu de tudo e me abandonou, levando consigo minha felicidade e deixando apenas culpa para trás...
Então é esse seu problema – pensei, sentindo uma certa identificação com sua amargura. - Arrependimento por ter levado outra pessoa ao mau caminho. No caso dela, um homem casado à infidelidade. O pesar que cresce cada vez mais, quando já não se tem a presença da pessoa amada para nos fazer esquecer do pecado.
- Minha querida, o adultério realmente...
- Ainda não terminei! – ela exclamou, num grito tão repentino que me fez dar um pulo. - Você está tirando conclusões precipitadas, minha culpa é muito maior do que uma simples traição! Se fosse apenas isso, eu seria uma pessoa feliz!
Fiquei sem fala ante tal afirmação, e também pela rudeza com que estava sendo tratado. Ela continuou:
- Perdão, reverendo. Estou sendo mal-educada, só que estou tão nervosa...
- Tudo bem, criança – falei de forma pausada, disposto a deixar passar. Limpei o suor da minha testa com um pano e pedi para que continuasse.
- Tá bom, mas... Será que antes, eu poderia fazer uma pergunta?
- Claro, minha filha, claro.
- Padre... Por que o suicídio é considerado um pecado mortal?
Foi apenas nessa hora que compreendi a grandeza da minha missão: aquela moça pretendia tirar a própria vida naquela noite! Agradeci em silêncio ao Senhor, por ter me enviado aquela pobre coitada em seu momento de maior necessidade.
Falei que a vida era um dom dado por Deus, portanto nós não tínhamos o direito de dela dispor com liberdade. O quinto mandamento era bem claro a respeito disso, “não matarás” valia em todos os casos. Quando a pessoa se matava, ela estava negando o dom supremo. Isso constituía um desrespeito ao Criador, o único que tinha direito de retomar nosso espírito, no momento que considerasse adequado. O suicida era aquele que pensava estar além de qualquer ajuda, mesmo a divina, e o ato de tirar a própria vida era a suprema negação à intervenção divina. Dessa forma, aquele que se matava estava condenando a própria alma ao inferno.
- Pois então é isso, minha filha. Como pode ver, essa não é a solução.
- Eu sei, reverendo, eu sei...
- Então, me prometa que não seguirá por esse caminho.
- É meio tarde pra me pedir isso.
- Por quê? Está assim tão decidida a se suicidar?
- Não, padre. Eu já me suicidei.
Um frio intenso desceu por minhas costas, contrastando com o calor crescente dentro do confessionário.
- Perdão minha filha? – questionei, embora tivesse ouvido com clareza. – Você quis dizer que já tentou o suicídio, é isso?
- Não, reverendo. Fui bastante competente em minha única tentativa.
Embora tenha ficado assustado em um primeiro momento, comecei a ficar nervoso no segundo. A igreja era um lugar sagrado, não de pilherias e desrespeito!
- Isso é algum tipo de brincadeira? – perguntei, tentando manter a calma.
- Não. Eu jamais teria lhe chamado até aqui, se o assunto não fosse sério.
- Como...?
- O senhor faz perguntas retóricas demais, padre. Você sabe muito bem do que estou falando: “Acorde José, e vá até a igreja. Você tem uma missão”.
Ah, meu amigo, nessa hora eu devo ter ficado mais branco que a cera das velas que queimavam sobre o altar.
- Não foi fácil mandar essa mensagem de tão longe, mas eu consegui. – continuou aquela voz, que subitamente havia adquirido uma entonação rascante e sobrenatural - De fato, consegui fazer coisas que o próprio Satanás julgaria impossíveis.
- Saia da minha igreja! – falei com firmeza, a coragem de um animal que foi acuado e não tem mais para onde fugir.
- “Sua igreja”, padre? Você não mudou nada, meu anjo barroco. O mesmo egocêntrico de sempre.
Senti minha pouca visão se embaralhar quando ouvi essas palavras, e precisei segurar nas paredes do confessionário para não desmoronar. Apenas uma pessoa já havia me chamado daquela maneira.
- Laura? – sussurrei.
- Exato, meu querido – a mulher sibilou. – Sei que minha voz está diferente, é que já não tenho minhas antigas cordas vocais. De fato não tenho nenhuma, mas não vamos entrar em detalhes.
Sim, a voz não era a mesma, só que a maneira de falar era igual. O mesmo desprendimento daquela moça de Laranjal do Norte, a cidade onde eu morara antes de ir para Rosa Cruz. Logo que me tornei responsável pela capela de Laranjal, percebi que Laura me olhava de uma maneira diferente das outras fiéis. Eu sabia lidar com mulheres que demonstravam um interesse indevido por mim, porém por algum motivo - talvez por ela ser a garota mais linda e inteligente que já havia conhecido - não consegui afastá-la completamente. Deixar essa brecha foi meu erro. Sabendo que não conseguiria acabar tudo enquanto continuasse por lá, pedi minha transferência.
- O senhor leu os jornais, não leu? Sabe muito bem o que fiz depois, umas três semanas após sua partida.
Sim, eu sabia. Ela havia se enforcado.
Segundo as manchetes, a razão do suicídio constituía um mistério. Embora tenha ficado arrasado com sua morte, tenho que admitir uma coisa: o fato dela não ter contado nada a ninguém me trouxe alívio, o quê, por sua vez, aumentou ainda mais meu remorso. Pensei nisso naquele momento, e então uma idéia veio à minha mente: e se na verdade, Laura tivesse sim contado tudo para alguém, e era essa pessoa que estava diante de mim agora? Uma amiga, uma prima, quiçá uma tia, qualquer mulher disposta a se vingar? E talvez, essa mulher tivesse sussurrado aquelas palavras na janela do meu quarto, dando a impressão que sua origem era celestial. Sim, só podia ser isso! Levantei num rompante, disposto a arrancar a moça do confessionário e tirar essa história a limpo.
Um braço ressequido atravessou a janelinha, envolvendo meu pulso com dedos retorcidos. Gritei de dor, não por causa da força sobre-humana que quase esmagava meus ossos, mas sim devido ao calor intenso que a mão da criatura emanava. Ela me puxou para baixo e – graças aos céus - soltou assim que sentei novamente.
- Eu não faria isso, reverendo – ela falou com tranqüilidade. – Não sou mais aquela mocinha bonita que você recebeu com tanto gosto em sua cama. Preciso da sua sanidade intacta para o que vou pedir, e não tenho certeza se o senhor suportaria olhar para mim sem enlouquecer.
Acho que ela não estava exagerando. A fraca visão de seu braço na penumbra já era perturbadora em excesso, mesmo sem poder definir como era a aparência de sua pele, pude perceber que não parecia humana. O lugar onde havia me agarrado ardia com intensidade. Comecei a rezar baixinho, enquanto aquele membro tenebroso retornava para o cubículo em frente. Uma vez que a tela havia sido rasgada, Laura se espremeu contra a parede oposta, seus contornos obscuros se misturando com a penumbra.
- Isso, fique bem quietinho enquanto termino minha confissão. O fato de você ter preferido a batina já era doloroso demais para mim, mas foi sua partida que me trouxe desespero. Pensei em vir atrás do senhor, mas pra quê? Eu sabia que não adiantaria. Sem remédio, acabei entrando em depressão. Precisando de apoio, contei tudo para minha avó, a pessoa que eu mais confiava nesse mundo. Sabe o que ela fez? Me esbofeteou, gritando como uma alucinada: “Menina que namora padre vira mula-sem-cabeça!”. Depois dessa inesperada aula de folclore, vovó virou as costas pra mim. Se ela soubesse que eu iria me transformar em algo ainda pior...
Eu continuava minha oração, a agonia em meu braço diminuindo aos poucos, enquanto a temperatura dentro da cabine seguia pelo caminho contrário.
- Foi no inferno que ganhei essa carcaça pavorosa. Sabe, a alma não sente dor, só a carne. Então, os demônios colocam nossos espíritos nestes... Receptáculos, feitos de algum tipo de matéria infernal, que de início são coisas amorfas e cascudas, porém se tornam maleáveis nas mãos de nossos carrascos. Eles nos moldam em uma tosca versão de nossa aparência em vida, apenas para aumentar nosso sofrimento, depois entram em nossas mentes e falam coisas... Esses corpos permitem nossa comunicação pela força do pensamento, entende? Isso não é uma dádiva, serve apenas para que os condenados possam berrar por misericórdia naquele limbo, onde o som de verdade não consegue atravessar.
Só nessa hora, reparei que a fala de Laura parecia vir do centro do meu cérebro, e não do cubículo em frente. Acho que é por isso que a voz dela estava diferente, afinal, o som dos nossos pensamentos não deve refletir o das nossas cordas vocais. Mas perdoe as conjecturas desse velho tolo. Ela continuou:
- Eles nos aplicam os mais terríveis suplícios, torturas que desintegrariam a carne humana em segundos, mas não o material desse corpo! Não, não, minha casca se fecha rápido, permitindo que eles possam continuar sempre e sempre, e eu grito mentalmente e eles riem e gargalham e continuam e não é sangue que escorre das minhas chagas antes delas cicatrizarem, padre! Não, negativo, o que sai de dentro de mim é fogo!
Passei a mão de leve sobre meu pulso ferido, imaginando que isso era fácil de acreditar. Sua “voz”, ou fosse lá o que fosse, começou a ficar mais alta.
- Fogo puro e escaldante, que queima a pele e causa uma agonia intolerável! Consegue imaginar isso, padre José? Consegue imaginar o tormento ao qual me condenou, SEU MALDITO?!
Encolhi-me no canto, apavorado, pensando se teria alguma chance de fugir correndo e decidindo pelo contrário.
- De alguma forma que não consigo compreender, consegui escapar. Demorei semanas para atravessar todos os círculos infernais, o medo de ser descoberta era uma tortura tão grande quanto àquelas que já havia sofrido. Os demônios têm um senso de humor bastante perverso, como não poderia deixar de ser. Eu imaginava que eles haviam permitido minha fuga, apenas para me dar esperanças vãs e, no momento em que visse a luz do dia, seria capturada e arrastada novamente para o abismo!
O vulto amorfo se contraiu ainda mais, e não pude deixar de sentir piedade.
- Mas no final das contas, eu consegui enganar aquelas abominações asquerosas... Tudo que fiz para chegar até aqui era considerado impossível. Mesmo assim, foi mais fácil do que conquistar seu amor, meu anjo barroco. Mas não se preocupe, já desisti de você. Afinal, não poderíamos ficar juntos. Não, não, o que eu quero agora é seu perdão.
- Meu perdão...? – perguntei, sem compreender.
- Sim. Tive muito tempo para refletir sobre o assunto lá embaixo. Parece tão injusto, não parece? Tudo bem que eu não era uma santa, mas não merecia ser condenada por toda a eternidade, merecia? Em razão de um último ato de desespero? Remoí a idéia enquanto eles moíam meus membros, até que de repente, tive uma revelação! Desculpe-me discordar de você, reverendo, mas há uma explicação bem mais simples para o fato do suicídio ser um pecado mortal: é porque ele não pode ser confessado! Por motivos óbvios, o suicida não tem tempo de se arrepender e pedir por absolvição. E como o senhor sempre disse, apenas o arrependimento sincero pode redimir nossos pecados, sejam eles quais forem!
Fazia sentido. Eu nunca havia pensando por esse ângulo e, mesmo naquele estado de pavor, fiquei impressionado com tal raciocínio.
- Bem, só que eu consegui contornar esse detalhezinho, não é verdade? Pois aqui estou, reverendo. Esse foi meu pecado, amarrei uma maldita corda em meu pescoço e pulei do banquinho, então me perdoe. Não precisa perguntar se estou arrependida, pode acreditar, nunca houve uma pessoa tão arrependida em toda a história da humanidade!
Ela soltou uma gargalhada insana, e fiquei sem reação ante aquele pedido blasfemo. Se Deus já havia condenado Laura, então não havia como mudar a sentença. Caso lhe concedesse o perdão, eu estaria afrontando uma decisão divina, cometendo um pecado tão mortal quanto o próprio suicídio!
- Eu sinto muito, minha filha, mas não posso...
A criatura se jogou para frente, arrebentando a divisória do confessionário. Fechei os olhos, evitando qualquer vislumbre de seu corpo repelente. No instante seguinte ela agarrou minha cabeça com suas mãos abrasadoras, e senti a pele queimar. Sua voz era um guincho insuportável dentro da minha cabeça, como o som de um giz arranhado o quadro negro.
- NÃO OUSE RECUSAR MEU PEDIDO, VERME! VOCÊ SABIA QUE EU ESTAVA APAIXONADA, MESMO ASSIM DORMIU COMIGO E DEPOIS FUGIU! NÃO NEGUE SUA PARCELA DE CULPA NO MEU SUICÍDIO! VAMOS, ME DÊ UMA PENITËNCIA E DEPOIS MEU PERDÃO! VOCÊ ME DEVE ISSO, SEU COVARDE! VOCË ME DEVE!
Sei que não deveria ter obedecido. Relembro aquele momento vergonhoso todos os dias, e fico fantasiando que consegui me manter firme, negando a ordem de Laura até o fim. Com certeza ela me mataria, mas eu não teria arriscado minha alma à perdição. É, é fácil pensar isso agora, quando aqueles dedos escaldantes não estão envolvendo meu crânio e formando bolhas.
Não hesitei um segundo antes de implorar:
- Tudo bem tudo bem mas me solte por favor me soooolte!!!
Ela largou, porém manteve as garras próximas de meu rosto, em suspenso. O cheiro nauseante de carne queimada só não era pior que a dor.
- Creio que essa seria a hora em que você me daria alguns conselhos – a aparição continuou. – Todavia, acho que podemos pular essa parte. Não vou me matar de novo, pode ter certeza. Então vamos, diga minha penitência.
- Sim, sim... Reze dez Ave-Marias e vinte Pai-Nosso...
- Não acha pouco? – ela questionou, e senti que aquelas mãos deformadas estavam se aproximando mais uma vez.
- Cinqüenta de cada então! Cinqüenta de cada!
- Tudo bem, meu anjo barroco. Mas pro seu próprio bem, espero que isso seja o suficiente para minha salvação. Caso contrário, eu juro que arrasto você comigo até o inferno, entendeu?!
- Entendi, entendi... Por favor, reze o ato de constrição agora.
- Tudo bem. Senhor meu Jes...
Nesse momento ouvi um estrondo altíssimo, e meu rosto foi envolto por um calor ainda mais intenso que as garras de Laura. Atordoado, corri para fora do cubículo, batendo as mãos em minha face e apagando o fogo nas sobrancelhas e cabelo. Pensei que ia perder os sentidos, porém o barulho da outra porta do confessionário me obrigou a continuar desperto.
O corpo sem cabeça de Laura caiu no assoalho, as chamas que saíam de seu pescoço incendiando os bancos de madeira mais próximos. De alguma forma, seu crânio havia estourado antes que ela pudesse completar a palavra “Jesus”. Ainda não encontrei explicação pra isso. Talvez uma intervenção divina tivesse impedido que ela continuasse, ou quem sabe uma criatura infernal não pudesse pronunciar um nome santo, não sei... De qualquer forma, pensei que aquele pesadelo havia acabado.
Foi então que a coisa se colocou em pé num pulo, cambaleando em minha direção de forma obstinada. Tentei correr, mas as pernas não obedeciam. Paralisado pelo medo, vi a entidade de formato feminino esticar os braços, o brilho das labaredas reluzindo em sua pele rugosa e abjeta.
Ela estava quase me alcançando quando diversas mãos surgiram do nada e a agarraram, impedindo seu avanço. Mas não eram os anjos do Senhor me salvando.
Eram justamente o contrário.
Gargalhadas profanas tomaram conta da igreja. Os entes demoníacos moviam-se tão rápido que não pude identificar suas formas, e agradeço aos céus por isso. No entanto, eu conseguia ver o que eles estavam fazendo: imobilizaram a suicida, que se contorcia como uma serpente moribunda, depois começaram a modelar seu corpo, quebrando-o e esticando-o. Laura não havia mentido, os demônios tinham mesmo um senso de humor bastante doentio. Cascos surgiram na ponta de seus membros, o ventre se expandindo enquanto pêlos negros brotavam por toda sua carcaça, que ficava com uma aparência cada vez mais eqüina. A abertura no pescoço decapitado começou a fechar, mas os diabretes não permitiram. Seguraram as bordas e moldaram um buraco permanente, para que o jorro flamejante nunca parasse de irromper por ali.
Corri antes de ver terminada a horrenda metamorfose, pois sabia que Laura viria atrás de mim para cumprir sua promessa. Esgueirei-me pelas sombras, vendo as pessoas correndo na direção da igreja que incendiava. Peguei meu cavalinho no estábulo ali perto e fugi pela estrada escura. Só parei no dia seguinte, quando alcancei a cidade mais distante possível. Procurei ajuda de um médico amigo meu, que cuidou das minhas feridas e concordou em me esconder na sua casa, sem fazer muitas perguntas. Permaneci ali durante alguns dias, mas logo os rumores chegaram aos meus ouvidos.
Diziam que alguns moradores de Rosa Cruz haviam visto uma mula-sem-cabeça saltar para fora da capela incendiada, cavalgando veloz em direção à floresta. Aqueles que a viram não tinham conservado o juízo perfeito.
Na mesma noite em que ouvi isso, senti que Laura estava se aproximando.
Desde então, virei um fugitivo. Não podia me instalar em um mesmo lugar por muito tempo, pois logo sentia sua amaldiçoada aproximação. Fui morar na Europa e depois Austrália, descobrindo que os oceanos não constituem impedimento para uma entidade infernal. De alguma forma ela me seguiu até lá, mas como sempre, consegui ir embora antes dela chegar perto demais. Às vezes, penso que ela me deixava escapar, apenas para aumentar meu tormento.
Acabei voltando ao Brasil. Com o passar das décadas, todo o meu dinheiro acabou, resultando na minha atual situação de miséria. A parte boa é que aquela sensação de proximidade foi ficando cada vez mais esparsa, e já faz cinco anos que não sinto qualquer sinal de Laura. Não creio que ela desistiria, mas acho que consegui despistá-la quando vim pra São Paulo. O medo de ser encontrado era a única coisa que me mantinha vivo, então aqui estou agora, no fim da minha jornada de pavor e remorso. Outra irá se iniciar, e temo que será longe dos braços do Criador.
Entende agora porque não posso aceitar a Extrema-unção, reverendo? Ela é destinada àqueles que possuem ao menos uma pequena chance, e talvez eu não tenha nem isso. Se eu aceitasse, o senhor também estaria se arriscando ao suplício eterno, algo que não quero adicionar à minha lista de culpas. Preciso enfrentar meu destino sozinho, e qualquer chance de misericórdia – sim, ainda tenho esperança – cabe unicamente a Ele. Então por favor, não insista.
Eu não pretendia falar por tanto tempo, agora estou exausto. Importa-se de deixar este velho decrépito dormir um pouco, padre Thiago? Caso eu não passe dessa noite, sinta-se à vontade para rezar por mim. Ah, e se não for incômodo, o senhor poderia verificar se minha janela está bem fechada? Obrigado meu amigo, e adeus por hora.

Padre Thiago permaneceu imóvel durante muito tempo, olhando para o ancião que começava a adormecer. Com relutância, chamou uma das freiras para permanecer ao lado do moribundo. Sua paróquia prestava auxílio no abrigo para indigentes, e sempre havia muito a ser feito por ali.
Dirigiu-se até o refeitório para conversar com os mendigos. Mesmo após terminada a janta, muitos permaneciam por ali para aproveitar o calor humano. Depois, foi ajudar o cozinheiro a lavar a louça, mas não conseguiu esquecer a história de José. O velho havia chegado ali há menos de dois meses, conquistando a todos com sua inteligência e simpatia.
Seu relato era absurdo demais para ser verdade. A explicação mais coerente era que tinha sido vítima de uma brincadeira de mau gosto e, influenciado pelo medo, havia visto coisas que não existiam. Na fuga, devia ter derrubado algum castiçal, iniciando o incêndio que destruiu a igreja e provocou aquelas marcas de queimadura em sua face. Pobre homem, fugindo a vida inteira de uma ilusão. E agora estava realmente arriscando sua alma, ao recusar a última chance de absolvição.
O vigário esperava que o velho sobrevivesse àquela noite, para tentar mais uma vez convencê-lo. Já estava planejando os argumentos que ia usar, quando escutou algo que o fez derrubar uma das bandejas no chão.
Da rua em frente, vinha o som de cascos.
Deve ser algum carroceiro coletando o lixo... – pensou envergonhado, recolhendo a louça. No entanto, o barulho estava ficando cada vez mais próximo. O cozinheiro parou o que estava fazendo, também prestando atenção. Abriu a boca para perguntar:
- O quê...?
Ouviram um grande estrondo na porta da frente, seguido de um galope.
Não é possível! – pensou o padre, andando rápido em direção à entrada e vendo a porta caída, em chamas. Uma intensa claridade vinha da sala de jantar, junto com um pandemônio de mesas derrubadas e gritos histéricos. Quando ele entrou correndo no refeitório, aquilo não parecia mais um abrigo para indigentes, mas sim um hospício.
- UM CAVALO! UM CAVALO SEM CABEÇA! – berrou um dos maltrapilhos, tentando agarrar o braço do vigário.
Não exatamente – o reverendo pensou enquanto se desvencilhava, já sabendo para onde a criatura havia ido. Virou no corredor dos dormitórios, em tempo de ver apenas a cauda eqüina entrando no quarto de José. O que veio em seguida foi seu grito, o brado de horror e revolta de alguém que tinha perdido todas as esperanças.
Fazendo o sinal da cruz, padre Thiago continuou correndo e entrou no aposento, abaixando a cabeça para evitar as labaredas que se alastravam pelo batente da porta. A freira estava encolhida no canto. Seu rosto retorcido mostrava uma expressão de completa demência, embora ainda restasse energia para um último ato de sanidade.
Apontava o dedo trêmulo para a cama vazia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Miniconto: Assim que...

ASSIM QUE...

... ela acordou, descobriu que estava novamente no vale da escuridão e do magma fumegante. Enlouquecida pela dor insuportável que chegava até os ossos, apanhou uma pedra afiada e enfiou na própria garganta. A traquéia se rompeu em um jorro escarlate. Lentamente, a garota morreu.
Assim que ela acordou, descobriu que estava novamente no vale da escuridão e do magma fumegante. Enlouquecida pela dor insuportável que chegava até os ossos, apanhou uma pedra afiada e enfiou na própria garganta. A traquéia se rompeu em um jorro escarlate. Lentamente, a garota morreu.
Assim que ela acordou, descobriu que estava novamente no vale da escuridão e do magma fumegante. Enlouquecida pela dor insuportável que chegava até os ossos, apanhou uma pedra afiada e enfiou na própria garganta. A traquéia se rompeu em um jorro escarlate. Lentamente, a garota morreu.
Assim que...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O Lençol premiado na comunidade Histórias de Terror! (E férias!).

Aeee, parece que só estou falando de O Lençol essa semana, mas também, essa história só me dá alegria! Além de ser publicada no Blog Editora Konthos, em um formato muito mais agradável (o link está na mensagem abaixo), agora o conto foi premiado na comunidade Histórias de Terror, no orkut (uma comunidade com 47.250 membros)! Havia várias categorias, e abocanhei apenas uma (mas uma muito saborosa, rsrs): venci na categoria Melhor Final! Ah, também cheguei bem perto na categoria "Vilão mais criativo", mas sem medalhas de prata nessa premiação, infelizmente, rs. Não deixem de conferir os demais vencedores, todos merecedores de seus prêmios!

Para quem quiser conferir, aqui vai o link para a premiação:

http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=49880&tid=5290500454198371237&na=4

E por enquanto é isso, meus "pequenos petizes das trevas". Ah sim, também vim avisar que estou saindo de férias. Sei que esse blog é a primeira coisa que vocês olham ao entrar na internet, ansiosos pelas novidades (hei, também tenho o direito de sonhar! HAUAHAU!), mas só vou conseguir postar mais alguma coisa no mês que vêm. Então até lá, e bom descanso para todos!

Abraços!

O Lençol no Blog Editora Konthos







Pessoal, vou fazer uma propagandinha básica de um novo Blog, que tem uma proposta muito bacana: o Blog Editora Konthos, do Wellington, tem por objetivo colocar histórias em formato PDF, com arte de capa e fonte de livro, deixando a leitura muito mais agradável. Tive a honra de ser convidado para participar do projeto, que está apenas começando (mas que vai fazer sucesso, tenho certeza). Ah, e quem também escreve e quiser participar, o Wellington está aceitando textos para avaliação!

Resolvi contribuir enviando meu conto O Lençol. Assim, aproveitei a oportunidade para revisar o texto, e corrigir vários errinhos bestas, que me incomodavam até hoje (mas que tinha resolvido consertar apenas quando surgisse uma oportunidade legal). Bem, a oportunidade surgiu, e aqui está a versão revisada de O Lençol, para quem não leu. Ou leu, e quer conferir se há alguma diferença significativa (já aviso que não! Mas que está melhor, ahhh, isso está!).
O link direto para o conto é:

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Miniconto: Assim que... (e outros contos legais!)

Acabou de sair a Terrorzine 05. E essa edição é mais do que especial, pois trás um miniconto meu ("Assim que...", na página 25), a poesia "Volto Logo" da minha mãe, em forma de conto (página 11), e dois minicontos de amigos que fiz no orkut, na comunidade Escritores de Terror: Haeckel J.M. de Almeida ("Um Deles", página 17) e Jocson de Souza ("Cego pela Neve", página 20). Acredite, vale à pena ler todos!

Então, está esperando o quê para baixar? Clica aí, antes que o mundo acabe!

http://www.cranik.com/terrorzine5.pdf

Abraços.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Postagem no Blog: Miniconto A LOUCURA

Ok, ok, eu sei, é uma atualizaçãozinha capenga (foi mal aí, Giane!), mas ainda estou sem material digno de ser postado (e sem tempo de escrever no momento, arghh!). Portanto, para aqueles que não tiveram paciência de clicar no link da Terrorzine 4, aqui vai o conto A Loucura, de mão beijada. Para quem não prestou atenção no que eu disse antes, talvez esse miniconto tenha relação com a história O Símbolo Circular (ou não, rsrs). Abraços, meus pacientes leitores. Até mais!


A LOUCURA

Você poderia pensar que o mundo enlouqueceu assim que a entidade multitentacular surgiu no céu noturno. Mas não foi assim, ao menos não onde eu me encontrava. Estava no centro da cidade quando alguém apontou para cima, e todos olharam. Pensamos que fosse um balão, um fenômeno meteorológico, qualquer explicação costumeira para aquele tipo de visão. A monstruosidade se retorcia enquanto flutuava em direção à lua cheia, mesmo assim nos apoiamos em nossas conjecturas. Então, uma criança perguntou:
- Aquilo vai bater na lua, papai?
Soltamos uma risada nervosa. É claro que isso não iria acontecer. A coisa certamente era gigantesca, e de fato parecia estar além da nossa atmosfera, mas só podia ser ilusão de óptica. Mesmo assim, seguramos nossa respiração enquanto aquilo chegava mais perto do satélite redondo.
No final estávamos corretos, não bateu na lua.
Passou por trás dela.
Só então o mundo enlouqueceu.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Trecho do conto A Fera de Vendaval do Sul

Meus rebentos noturnos, tenho uma triste notícia para dar: por enquanto, estou sem material para postar aqui (ah, quase posso ouvir os lamentos inconsoláveis). Sabem como é, não quero gastar toda minha munição, afinal, estou trabalhando em um livro de contos, e desejo que a maior parte do material seja inédito. Portanto, vou postar apenas um trecho de um conto meio longo, que se chama "A Fera de Vendaval do Sul". Acho que esse pedacinho quase funciona como uma história independente. Então, aí vai:



A FERA DE VENDAVAL DO SUL

A garota corria pela floresta escura, sem olhar para trás.
Não pensava no namorado morto na clareira, a mente concentrada apenas na própria sobrevivência. Conhecia bem aquele caminho entre as árvores, mas isso não estava lhe dando vantagem. Podia ouvir o barulho das folhas secas sendo esmagadas logo atrás de suas costas.
Cada vez mais perto.
A trilha é muito aberta, ele vai me alcançar! - pensou.
Entrou na mata fechada, torcendo para que seu enorme perseguidor não conseguisse se movimentar por ali. Sequer sentiu a dor da vegetação e dos espinhos que arranhavam sua pele. Abaixou a cabeça ao passar por um galho mais grosso e saltou o tronco de uma figueira morta. A noite era clara o bastante para que enxergasse esses obstáculos maiores, o desespero lhe dando uma agilidade quase sobre-humana. As passadas pareciam se distanciar, mas não podia ter certeza. Parecia que todos os cães da cidade haviam decidido latir ao mesmo tempo, dificultando a distinção de outros sons.
Após muitos metros de passos acelerados e ar gelado entrando pelos pulmões, ela conseguiu avistar as luzes das casas mais próximas. Por um momento acreditou que bastaria chegar à rua para escapar com vida, afinal, o monstro que a perseguia não poderia existir no mundo civilizado, só na floresta escura em que moravam os pesadelos.
Com horror, escutou um galho sendo estraçalhado a menos de dois metros de suas costas. Não era justo, ela estava tão perto! Impulsionada pela adrenalina, conseguiu aumentar ainda mais a velocidade das pernas. De súbito atravessou o limiar entre floresta e terreno baldio, onde o capim alto poderia esconder algum buraco. Não adiantava pensar nisso, tinha que continuar. Já conseguia ver as pessoas nas janelas das casas, brigando com seus cães que ladravam de forma enlouquecida. Tentou gritar por socorro, mas a voz não conseguia ultrapassar a barreira de sua própria respiração ofegante. As passadas estavam cada vez mais audíveis.
Só mais um pouco, só mais um pouco...
Repentinamente, o som de passos parou.
Ele desistiu! – concluiu com alívio.
Mas estava enganada.
Na verdade, o silêncio indicava que a criatura estava no meio de um salto.
O impacto nas costas da garota foi esmagador, mas não a matou.
Os dentes em sua garganta sim.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Sugestão de Blog

Em vista do sucesso da poesia Volto Logo, postada por aqui, minha mãe resolveu fazer seu próprio blog, para colher os frutos da fama sozinha. Portanto, fica a sugestão para quem gosta de poesias. O nome do Blog é Ana Flower, e vale a pena conhecer! Segue o link:

http://anaflowerpoesias.blogspot.com/

Abraços!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Conto: MONSTROS

Crianças, um novo conto meu foi publicado na Fanzine Juvenatrix, edição 113, do grande Renato Rosatti. Para ler o conto, vocês terão que mandar um e-mail para renatorosatti@yahoo.com.br, e colocar como título do e-mail "solicitação da Juvenatrix 113".

Mas aí, vocês vão dizer: "Ahhh, tio Mario, mas fazer isso dá trabalhoooo".

INGRATOS! Prestem muita atenção agora, caso contrário, vou arrastá-los ao porão para mostrar uns aparatos medievais que eu comprei! HAUAHAUAHAU!

Espantem a preguiça, usem seus dedinhos para escrever um pouquinho, e garanto que vocês não vão se arrepender! A Juvenatrix sempre vêm recheada de matérias excelentes sobre filmes, seriados, música, etc, além de contos muito bons! E depois que vocês solicitarem a edição 113, basta pedir que o Renato mande mensalmente os próximos números (além da fanzine Astaroth, que é muito boa tbém).

Abraços, minhas crias da noite. Até mais!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CONTO: O SÍMBOLO CIRCULAR

O conto a seguir foi publicado na Scarium 21 - Especial Lovecraft, onde cada autor deveria homenagear o escritor de alguma forma. Tentei absorver alguns de seus maneirismos literários para dar o clima certo, mas sem perder minha própria identidade. Acabou virando uma simbiose bizarra, mas que eu aprecio bastante. Espero que vocês também gostem (ah, acabei de fazer umas revisões rápidas, então qualquer errinho eventual será corrigido mais tarde).

A propósito, talvez exista alguma ligação entre este conto, e o miniconto A Loucura, publicado na Terrorzine nº 4 (link no post anterior a este). Ou não, rsrs.

Sem mais delongas, aqui vai o indizível conto:




O SÍMBOLO CIRCULAR

Clayton Reis caminhou até o centro da sala e depositou cuidadosamente no chão o homem que havia raptado. Agir com delicadeza era algo incomum em sua vida, porém Emerson Ribeiro era vital em sua missão. Portanto, seria melhor evitar danos desnecessários.
Mas só os desnecessários.
Agachou-se para conferir se as cordas e a mordaça estavam bem colocadas e, tentando parecer tranqüilizador – ou ao menos, o mais tranqüilizador que um sujeito com quase dois metros de altura poderia aparentar – ele falou:
- Tenha calma, senhor Ribeiro. Se fizer tudo que eu mandar, você não sai daqui machucado.
O sujeito franzino o encarou com olhos aterrorizados e úmidos. Mais uma vez tentou fazer a pergunta que tanto angustiava sua mente.
- Sua esposa está bem – respondeu o seqüestrador, como se tivesse lido seus pensamentos. – Agora vou tirar esse pano da sua boca e você não vai gritar. Fui claro?
Emerson acenou que sim com a cabeça, então o grandalhão cumpriu o prometido.
- Onde ela está? – o cativo suplicou. - Onde está Vanessa?
- Já disse que não precisa se preocupar com ela. Agora não interrompa...
- Por favor, só...
Antes que pudesse terminar, o cano de um revólver entrou em sua boca.
- Não estou tendo prazer nenhum em fazer isso – Clayton afirmou, tão impassível que quase dava pra acreditar. – No entanto, a tarefa que temos pela frente pode levar várias semanas. Se continuar desobedecendo, sua estadia vai se prolongar mais do que nós dois desejamos...
O metal fazia pressão na amídala do prisioneiro, sufocando e provocando ânsia. Caso vomitasse naquela posição, corria o risco de morrer engasgado.
- Mais uma vez, peço que escute.
Emerson queria responder que escutaria qualquer coisa, ouviria o homenzarrão recitar Shakespeare se assim desejasse, contanto que tirasse a arma de sua boca!
- Quero que você me ajude a invocar uma alma – revelou, tirando o revólver com deliberada vagareza. Colocou a arma sobre o único móvel da sala, uma escrivaninha ocupada por pilhas de papel em branco e um computador com impressora. A lâmpada parecia fraca demais para aquele cômodo espaçoso, mal vencendo a penumbra que se insinuava pelos cantos empoeirados.
- Quero começar logo, então se quiser perguntar alguma coisa, vá em frente.
Desconfiado e ainda ofegante, o prisioneiro relutou antes de questionar:
- Por que eu? Existem outros que podem fazer isso...
- Todos que encontrei não passavam de charlatães, vivendo de arrancar dinheiro de ignorantes. Não ofenda minha inteligência, preciso de alguém que, de fato, consiga fazer contato com os mortos. Sei que o senhor não faz isso com freqüência, mas já ajudou pessoas que necessitaram do seu dom, e sem cobrar. Conversei com algumas delas, sabe? Notei que você conseguiu informações realmente válidas, coisas que apenas seus parentes falecidos poderiam saber. Nada de frases genéricas que só trariam conforto passageiro. Perceba que pesquisei muito antes de fazer minha escolha, e não costumo errar. Alguma outra pergunta?
- Por que me seqüestrou? Se está tão desesperado por isso, bastaria pedir...
- Meu caso é diferente. Depois de tudo explicado você vai entender.
Clayton pegou uma pasta e puxou a cadeira da escrivaninha, sentando reto como uma tábua.
- Sou arqueólogo e historiador. Não vou aborrecê-lo contando detalhes do meu currículo, basta dizer que era muito respeitado na comunidade científica. A pesquisa de campo era o que mais me atraía, e durante uma expedição na Grécia me deparei com um achado extraordinário: a entrada para um templo subterrâneo, tão imenso que parecia impossível que estivesse na pequena caverna onde o encontrei.
Tentando compreender o que o seqüestrador dizia, Emerson fez uma analogia com os desenhos animados que seus sobrinhos assistiam: imaginou os personagens entrando num casebre minúsculo, cujo interior era imenso como numa mansão. O pensamento, que deveria ser cômico, o encheu de tristeza. Será que conseguiria sair dali vivo, para ver as crianças de novo?
Clayton continuava sua explanação, absorto.
- As colunas, as linhas, os desenhos, tudo era de uma aparência exótica e desconhecida, em nada lembrando a arquitetura grega ou de qualquer povo que já tivesse sido documentado. O detalhe mais curioso era o tamanho dos degraus e passarelas, que pareciam ter sido construídos para criaturas quatro vezes maiores que os seres-humanos. Eu estava sozinho nessa exploração e por algum motivo inexplicável, os estranhos entalhes que cobriam as paredes me provocaram um sentimento de profunda angústia e terror. Recolhi um pequeno ídolo de pedra e saí apressado pela mesma abertura, chamando meus colegas imediatamente. Por sorte não contei o que havia encontrado, pois quando chegamos ao local de entrada havia apenas uma sólida parede de rocha.
O raptor balançou a cabeça, como se ainda não acreditasse que tal coisa pudesse ter acontecido.
- Durante dias tentei reencontrar a passagem, sem sucesso. Escavei numa profundidade em que seria fisicamente impossível que o santuário não estivesse, contudo nada encontrei. Caso não tivesse trazido esta horrenda escultura de lá, iria acreditar que tudo não passara de alucinação.
Colocando uma luva, o seqüestrador retirou um objeto do bolso e aproximou do rosto de Emerson, que foi tomado por uma premente repulsa. Era como se o artefato não fosse feito de pedra, mas de algum material incognoscível ao qual sua consciência demonstrava completa intolerância. Desejava se afastar da estatueta de formato humanóide, com um emaranhado de tentáculos no lugar da cabeça e asas membranosas enroladas sobre o corpo asqueroso. Porém, ao mesmo tempo em que a imagem causava horror, também provocava uma irresistível atração, fazendo o homenzinho pensar nas lendas sobre serpentes que atraíam as presas através do hipnotismo.
- Já ouviu falar em datação por carbono-14? – Clayton perguntou. - Através desse exame, foi constatado que a escultura tem mais de setenta milhões de anos de idade, ou seja, as criaturas que construíram aquele templo foram contemporâneas dos dinossauros! A maior descoberta de todos os tempos havia escapado entre meus dedos...
Pela primeira vez, Clayton mudou daquele semblante abstraído para algo mais humano. Não era confortador, já que a expressão era de fúria reprimida.
- Você faz idéia do quanto isso é frustrante para um pesquisador? Eu havia encontrado algo que iria revolucionar todo nosso conhecimento histórico, biológico, físico-quântico... Que diabos, algo que mudaria todos os ramos da ciência! Uma mera escultura não seria suficiente para destruir tantos dogmas, eu seria ridicularizado se tentasse!
O cativo se encolheu, sentindo os perdigotos molharem sua testa. Seu algoz suspirou fundo antes de continuar.
- Eu precisava de mais provas. Com um esforço que os fracassados definiram como “obsessivo”, dediquei-me totalmente aos estudos sobre aquela construção perdida. Como as pesquisas tradicionais nada revelaram, me aprofundei no ocultismo. Encontrei tomos obscuros escondidos nos arquivos de museus e bibliotecas de diversos países, que falavam sobre seres monstruosos conhecidos como “Os Antigos”. Vindos das estrelas, eles habitaram nosso planeta há muito tempo atrás e, por algum motivo, foram embora para outra dimensão. Baseado nisto, concluí que a passagem para aquele templo era na verdade um portal para esse outro universo. Isso explicava o tamanho desmedido do santuário, que parecia ser muito mais amplo do que aquela gruta poderia suportar.
Ele guardou a estatueta no bolso, para alívio de seu prisioneiro.
- Através do contato com ordens e seitas clandestinas, ouvi rumores sobre um livro antiguíssimo que, supostamente, continha todas as informações que eu procurava: o Necronomicon. Com capa feita de pele humana e páginas repletas de profecias e encantamentos profanos, sua autoria é atribuída ao árabe louco Abdul Alhazred. Por meios que não desejo revelar, tive acesso a algumas folhas do volume proibido, trechos que escaparam de ser queimados durante as Cruzadas e a Inquisição. Eu já falava sete línguas, mas não hesitei em aprender também o árabe. Assim, fui capaz de decifrar aquela grafia misteriosa que, segundo diziam, poderia levar um homem à demência. Uma bobagem, lógico, contada pelos fracos que não tiveram coragem de fazer o mesmo que eu. O problema é que não existe nenhuma cópia ou exemplar completo da obra, e precisava dela para encontrar as provas que buscava. Eu só tinha poucas páginas incompletas, como essa aqui.
Disfarçando certo nervosismo, Clayton retirou o fragmento de pergaminho da pasta. Emerson voltou a sentir aquela irracional mistura de asco e atração ao observar a gravura: era o desenho um estranho sistema solar, com seis planetas orbitando uma estrela amorfa. Embora a porção superior estivesse rasgada, era possível ver metade de um símbolo circular, cujos padrões fabulosos eram interligados por caracteres desconhecidos.
- Esta representação mostra parte das instruções para um ritual, impossível de ser realizado sem o restante da página. Pode-se dizer que eu estaria num beco sem saída, caso não tivesse feito outra importante descoberta no mesmo período. Minha vida sempre foi dedicada aos estudos, nunca perdi tempo com passatempos frívolos como a literatura. Portanto, qual não foi minha surpresa ao digitar “Necronomicon” em sites de busca, e encontrar tal palavra associada a um escritor! O nome dele era Howard Phillips Lovecraft. Adquiri toda sua obra e fiquei pasmo, suas descrições, os nomes, tudo casava com minhas pesquisas! De alguma forma ele também sabia sobre os Antigos, utilizando-os como inspiração para seus textos. Analisei seus contos com atenção e, entre os inúmeros adjetivos exagerados e melodramáticos, encontrei respostas para enigmas que me pareciam insolúveis. Por exemplo, quando consegui o mapa incompleto para um suposto templo perdido na Antártida, foram as palavras de H.P.Lovecraft que me forneceram as coordenadas faltantes, através de anagramas. Cheguei ao local desejado e encontrei apenas alguns escombros, mas não desanimei. Afinal, achei isto!
O grandalhão mostrou a fotografia de um muro caído, coberto parcialmente por neve e entalhado com os mesmos desenhos do pergaminho. Contudo, o símbolo da foto estava completo, e em seu centro era possível ver algo parecido com um ser humano.
- Segundo os trechos que consegui traduzir, esse homem da gravura é a chave. Vê essas palavras ao redor? Elas descrevem um encanto de invocação. Tentei realizar o ritual algumas vezes, porém descobri que não tenho o dom necessário, é preciso ser um... Odeio essa palavra... “médium”. É aí que você entra. Assim que invocarmos este espírito, creio que ele nos ajudará a redigir um novo Necronomicon.
O seqüestrador ficou em silêncio, como se esperasse alguma colocação. Então, o cativo fez uma sem se preocupar com as conseqüências.
- Olha... Não sei o quanto de tudo isso é verdade, mas com certeza há algo sobrenatural nesses objetos. O efeito opressivo que provocam demonstra que são prejudiciais, nunca senti tanta maldade antes! Nada de bom pode sair disso, você não sabe qual a intenção desses “Antigos”, e se quiserem nos fazer mal? Acha que vale a pena correr o risco de morrer?
- Melhor morrer pela verdade do que viver na mentira.
Dando o debate por encerrado, o grandalhão levantou e atravessou uma porta, falando alto para se fazer ouvir.
- Agora posso responder aquela pergunta, lembra? Sobre a necessidade de te trazer à força. Entenda, para contatar esta alma em especial, os métodos que você utiliza não vão funcionar...
Clayton voltou até a sala arrastando outro homem, também amarrado e amordaçado. Pelas suas roupas, parecia um indigente.
- É preciso sacrificar uma pessoa durante a invocação. Coisa que você não faria de livre vontade, estou certo?
O prisioneiro arregalou os olhos, sentindo um calor intenso invadir sua face.
- Você enlouqueceu, não vou participar disso...!
Sem responder, o seqüestrador passou novamente pela porta. Voltou carregando uma mulher amarrada nos braços.
Aflito, o prisioneiro constatou que era sua esposa.

A cerimônia estava pronta para começar. Agora que fora colocado de joelhos - pernas acorrentadas e braços livres para segurar um punhal – Emerson percebeu que o símbolo circular estava desenhado com tinta branco no chão da sala. Ele estava posicionado no meio do emblema, o mendigo imobilizado na sua frente implorando pela vida com o olhar. Não tinha escolha, era aquele homem ou Vanessa. Clayton estava em pé fora do círculo, com o revólver apontado para o coração de sua mulher. Concentrando-se nas instruções recebidas, o homenzinho começou. De início teve dificuldade para pronunciar aquelas palavras peculiares, com muito mais consoantes do que vogais, mas logo a linguagem hedionda pareceu adquirir vida própria.
- Haght Yahghha Ohsthshoghot, Ehhtymax Imathoghxthn d’shomoth, HAGHT YAHGHHA OHSTHSHOGHOT...
Suas mãos se erguiam na mesma velocidade que a voz ficava mais alta.
O mendigo se contorceu, tentando inutilmente se afastar.
Fechando os olhos para não ter que encarar a vítima inocente, Emerson enterrou a lâmina em sua garganta. O sangue não se espalhou pelo chão de maneira aleatória, e sim cobrindo apenas a tinta, como se as linhas fossem canaletas. Quando todo o branco foi substituído por vermelho, um brilho intenso obrigou os demais presentes a também cerrarem os olhos.
Ao abri-los, Clayton percebeu que não estavam mais na chácara distante que havia alugado.
Na verdade, sequer estavam na Terra.
A cidade alienígena se agigantava até alturas inimagináveis, como se tentasse alcançar o informe astro central e sem luz própria que cobria quase totalmente o vasto céu noturno. A arquitetura das desmesuradas construções era idêntica à daquele templo que encontrara na Grécia, com exceção da estranha cúpula que os cercava, impedindo que fossem aniquilados pela atmosfera hostil. Não era nada disso que o seqüestrador esperava que acontecesse. Ia chamar por Emerson, que permanecia imobilizado de pavor, quando percebeu que não estavam sozinhos ali dentro.
Clayton já havia pensado na possibilidade de se arrepender, contudo não achava que seria tão depressa. Quatro gigantescas criaturas se aproximaram com movimentos ágeis e odiosos, e a aparência delas era tão alarmante que chegava a ser indescritível. Minúsculo diante das monstruosidades de oito metros, o homenzarrão se encolheu num canto e apontou o revólver, porém foi ignorado. Dois daqueles seres capturaram a mulher que se debatia e o cadáver do pedinte, colocando-os dentro de caixas com a indiferença de cientistas lidando com ratos de laboratório. Outro agarrou Emerson com seus apêndices oleosos e o levantou até a altura da estrutura nodulosa que deveria ser o rosto, enquanto o quarto se aproximou segurando um estranho dispositivo que parecia tanto tecnológico quanto orgânico. Deste aparelho saiu uma agulha grossa, que se aproximou da testa do homenzinho aterrorizado. Clayton desviou o rosto, mas acabou vendo algo pior. Lembrou de palavras como “ciclópico”, “indizível” e “gargantuano”, percebendo o quanto fora injusto com Lovecraft. O escritor não havia exagerado, tinha sido até bastante contido em suas palavras.
O bizarro “sol” daquele sistema planetário começava a se esticar, asas colossais se abrindo e revelando um horrendo corpanzil de proporções cósmicas. A cabeça repleta de tentáculos virou em sua direção e abriu os olhos, demonstrando tamanha perversidade que a mente de Clayton pareceu ser esmagada numa overdose de pavor e loucura. Sem conseguir pensar em qualquer rota de fuga daquela abominação imensurável, ele aproximou o revólver da têmpora. No entanto, perdeu a consciência antes que pudesse escapar.

Clayton despertou quando estava de volta ao ponto de partida, a penumbra da salinha da chácara denunciando que já era noite. Deitado de barriga para cima, tentou levantar para acender a luz. Entretanto, não conseguia se mover.
Conjeturava sobre isso quando o rosto de Emerson apareceu à frente do seu, a recente cicatriz na testa ainda avermelhada pela cauterização. Seu semblante estava tão diferente que parecia outra pessoa, e essa outra pessoa não parecia estar com o juízo perfeito.
- Olá, dorminhoco! Vamos acordar, vamos acordaaar, já está na hora!
O homenzarrão permaneceu prostrado, não só porque uma força invisível continuava prendendo-o firmemente ao chão, mas também porque algo na frase o deixou bastante desorientado.
Seu ex-prisioneiro estava falando em árabe.
- Pelo que sondei nas memórias contidas neste cérebro, você gosta de longas explicações. Então é hora de ouvir algumas! – continuou.
Clayton tentou falar algo, contudo aquilo que imobilizava seu corpo se aplicava também à sua boca.
- Caso você não seja retardado como um camelo tuberculoso, já deve ter percebido que não sou Emerson Ribeiro, e sim alguém que incorporou nele. Meu nome é Abdul Alhazred, conhecido como “árabe louco”, embora prefira o termo “excêntrico”. Mas estou me adiantando, eis a história como me foi contada, e que Alá... Ou melhor, que Cthulhu me amaldiçoe se estiver mentindo!
Ele tomou fôlego antes de começar.
- Pois bem, quando os antigos souberam que teriam de abandonar essa dimensão – não pergunte o motivo, pois isso eu não sei – eles preparam uma estratégia de retorno. Através de magia e ciência avançada, desenvolveram um organismo novo, que evoluiria até ser capaz de comportar certos dons, como a escrita, o poder de invocar os mortos, etc. Essa criatura adorável era... O HOMEM! – berrou de forma estridente.
- O modo de pensar dos Anciões é tão fundamentalmente diverso do humano, que só foi possível desenvolver um único indivíduo com capacidade de compreendê-los. Ou seja, eu! Por isso, minha alma precisou ser preservada quando fui morto por fanáticos, momentos antes de terminar o Necronomicon. Essa possibilidade havia sido prevista, então fui instruído a escrever o ritual do símbolo circular, passível de ser realizado apenas por quem tivesse um corpo capaz de me conter. Dessa forma, eu poderia voltar e escrever outro!
Clayton observou o homem alisar os próprios braços, com um sorriso satisfeito.
- Entretanto, como essa alma caridosa me faria esse favor, já que metade da página com a cerimônia havia se perdido? Precisávamos de alguém apto para compreender ao menos uma parcela de nossas informações. É aí que o Lovecraft entrou! Por meio de sonhos, nosso cooperativo escritor recebeu as coordenadas necessárias e as transcreveu em suas histórias, para que mais tarde a pessoa certa pudesse interpretá-las. O que não foi previsto é que essa pessoa não seria meu futuro receptáculo, mas alguém que levaria o receptáculo até mim! Um doce de damasco se você adivinhar quem foi! – falou, batendo o dedo no nariz do homem imobilizado.
- Agora poderei terminar o Necronomicon, e fazer tantas cópias que será impossível destruí-lo novamente. Vejo muitas possibilidades nessa tal de “internet”! Daqui alguns anos, um exemplar vai ser lido por uma jovem com habilidade de abrir portais entre as dimensões. E não serão passagenzinhas medíocres como essa que vocês fizeram agora pouco! Nããão, vão ser passagens imensas o bastante para permitir o retorno dos Antigos, que retomarão o posto de espécie dominante sobre a Terra!
Ele saltou e bateu palmas exultantes.
- Você foi um bom instrumento, contudo já perdeu sua utilidade. Mas sabe que simpatizei com sua pessoa? Como foi aquela frase? – o árabe estufou o peito e declamou: “Melhor morrer pela verdade do que viver na mentira”!
Gargalhando como um lunático, ele começou a abrir a camisa de Clayton com o punhal.
- Tamanho idealismo merece ser recompensado! Sei que desejava participar da confecção do Necronomicon, então reservei para você um papel crucial no primeiro exemplar, que será feita à moda antiga...
O homem aprisionado conseguiu ver seu próprio desespero refletido na lâmina, antes dela descer delicadamente sobre seu peito e começar a remover a pele.
- Você vai fornecer o material para a capa!
Caso a boca de Clayton Reis não estivesse tampada por um feitiço ancestral, seus gritos de agonia teriam sido ouvidos até o amanhecer.

FIM

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Miniconto: A Loucura

Atenção, fiéis leitores (sim, estou falando com vocês dois)! Saiu um novo miniconto meu ("A Loucura", uma pequena homenagem ao escritor H. P. Lovecraft), no Terrorzine 4. Em respeito aos editores dessa excelente revista virtual, não vou postar o conto aqui ainda, mas sim o link para vocês baixarem a revista (meu conto está na página 31).

http://www.cranik.com/terrorzine4.pdf

Vamos lá, gente, vocês só perdem uns segundinhos fazendo isso, e ainda deixam o titio Mario aqui feliz! Um abraço, vou ver se arrumo algo com mais "sustança" para colocar no blog este final de semana.

Obs. Talvez exista alguma ligação entre este miniconto, e o conto O Símbolo Circular, que está logo acima. Se puder sugerir a ordem de leitura, seria melhor ler o conto anterior antes do miniconto.

Abraços!